quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Os jogos bárbaros e o jogador barbarizado

Para os jogos, confesso, sou uma negação. Exceto se for um jogo para ver quem passa o menor período de tempo sem pensar em comida, sexo ou literatura, de resto sou unanimemente reprovado. E os votos unânimes vêm de toda parte, incluindo-se, nesta contagem, de mim mesmo.
No primeiro ano de faculdade, por exemplo, faço recordar comigo mesmo de uma ocasião em que um aniversário de um amigo se marcou pela fartura de jogos, dentre eles um tal de detetive e assassino, que consistia em escolher, dentre um punhado de jogadores, dois deles: um para ser o detetive e o outro o assassino, ambos vigentes no anonimato. O detetive tinha de descobrir, apenas com o olhar, quem era o algoz, pois este deixava em seu rastro uma prova essencial: as piscadelas. Um piscar de olhos era o suficiente para se matar a outrem. Os civis, assim chamados quem não era detetive nem assassino, ao receber a piscadela, dizia estar morto. Iam sendo eliminados um a um, até o término. Ganhava quem matava a todos primeiro ou se o detetive descobrisse o meliante antes do total genocídio ocular. Pois bem, eu era sempre o tapado que não adivinhava quem era o assassino e ficava para chupar o dedo. Meus neurônios sempre foram razoáveis, para não ficar chato dizer péssimos, nessas diversões.
Na mesma ocasião brincamos de porco. Eu pouco me lembro das instruções do jogo, pois, pudera!, as reminiscências aparecem mais facilmente quando são memórias agradáveis, as quais, como se vai logo perceber, não eram tão memoráveis assim. O porco, se não me falha o cérebro, conceituava-se, basicamente, em um jogo de cartas, que eram embaralhadas, transpassadas em montes, divididas em número igual pela quantia de participantes e, cartas às escuras, tinha-se que compactar uma certa quantidade de naipes iguais para que se desse ensejo à rapidez de raciocínio e, por conseguinte, ao movimento ágil das mãos.
Quatro naipes idênticos!, quem as tivesse reveladas abaixava primeiro seu baralho e, à vista disso, os outros jogadores sucessivamente baixavam seus maços de cartas já inúteis. O que restava por último, vulgo dizer, o mais lerdo, tinha de pagar um castigo impróprio aos indivíduos de bom coração. Adivinha quem era o retardatário? Dou uma estrela de inteligência exemplar a quem descobrir.
Eu era alvo dos sadistas que se deliciavam em me assistir no papel de deplorável jogador. Só neste dia antes mencionado, como prova de meus castigos, tive o rosto pintado com carvão de rolha de cortiça queimada, mastiguei frango torrado, folha de boldo e engoli sal grosso.
Depois de tudo isso, e ainda com o espírito esportivo em voga, eu tendi a murmurar: posso ser café-com-leite da próxima vez? Ante a negativa dos colegas, eu suplicava: vamos brincar de outra coisa? Ainda sem a aquiescência coletiva, eu simplesmente me retirava ou ficava à banalidade de meus pensamentos.
Pus-me a fazer uma análise diante disso em todo o decorrer de minha vida, a principiar pelos jogos esportivos: futebol, basquete, tênis, vôlei, handball e toda a sorte de jogos que se compõem pela utilização de uma bola, de pronto descartei, eu era, e continuo sendo, um completo ser inoperante. Com a comicidade de agora e a antiga amargura, relembro-me das sofríveis aulas de educação física, em que se formavam os times para as partidas de futebol de salão e eu era sempre o último a ser escolhido. Houve ocasião em que os capitães dos grupos, além de discutirem quais seriam os derradeiros selecionados, ainda me empurraram um para o outro como brinde, frise-se, um brinde totalmente dispensável.
Depois, passei a perceber o desastre encarnado nos jogos de cartas. Joga truco?, era a questão dos amigos. Eu respondia que já havia aprendido tal carteado incontáveis vezes, mas que o meu senso de raciocínio e minha memória de pato não me permitiam debruçar sobre o truco com a mesma intensidade com que era imbatível em ficar apenas olhando a outras pessoas jogarem. Pôquer, buraco ou paciência eram possibilidades de ficar a um lado conversando ou mesmo quieto: o desenrolar do passatempo só se dava na teoria, pois na prática o regulamento não se adensava em minha mente. Aliás, quanto ao jogo de paciência, paciência mesmo quem tinha de ter era quem ficava ao meu lado me assistindo a disputar a partida contra o computador.
Outra situação me veio à mente: fomos eu e minha esposa – aliás, uma mulher guerreira, que não esmorece ante minha inaptidão aos jogos, pois me dá um banho nas competições logo de cara – à casa de um casal de amigos que sugestionaram disputar uma partida de canastra, salvo engano. Chegamos às onze horas da noite. À meia noite eu desistia de jogar. Às quatro horas da madrugada os três companheiros encerraram as inúmeras rodadas de canastra, já cansados. Às mesmas quatro horas eu já havia assistido a uns três filmes na tevê a cabo e já estava no vigésimo sono. Curioso, não é? Pelo menos eu comi pra dedéu, porque as mãos não ficavam ocupadas segurando o baralho.
Refleti também acerca dos jogos de azar. Bingo era uma desgraça para este que vos fala. Ao menos eu tinha a desculpa de informar aos conhecidos que a sorte nunca estava ao meu lado: bingos, sorteios e promoções sempre se encontravam a longínqua distância de mim. A regra da sorte a quem nasceu com o orifício sedal exposto ao satélite da Terra só foi quebrada com a infalível megassena. Não que eu tenha sido sorteado e esteja milionário!, antes fosse! O que ocorreu mesmo é que, sempre tendo apostado em números que primeiro vinham à minha mente e – novidade – nunca tendo ganhado nada, numa ocasião específica anotei, num mínimo pedaço de papel, os números para gastar meu dispensável um real e cinqüenta centavos. Sorteada a megassena, corri ao jornal e fiquei pasmo ao perceber que cinco dos seis números jogados haviam sido premiados. O ponto essencial nessa história foi que esqueci de jogar na meia-dúzia de valorosos números, bem como esqueci o papelete no fundo do bolso da calça. Entendi, nesse dia, o porquê de a megassena levar consigo o nome de jogo de azar. Para a situação específica seria melhor fazer uma adaptação e carregar consigo o título de jogo de burrice, é de se convir.
Os jogos eletrônicos também me foram uma decepção, cujos precedentes só foram superados pelas circunstâncias já relatadas nesta crônica. Em minha meninice, numa época em que os jogos eletrônicos eram diversão garantida e novidades de informática estavam em constante evolução – e continuam diuturnamente estando – costumávamos, eu e uns primos, todos mais velhos, durante as festas de fim de ano ou nos feriados prolongados, unir-nos em grupos para nos divertirmos com os games de diversas modalidades, principalmente os de corrida e os de futebol. Eu não era afeito a esportes, bem como não continuo sendo (que o diga minha pança homérica), mas sempre, quando convidado, me propunha a apertar os botões dos controles sem qualquer disciplina. Apeteciam-me os jogos de plataforma e os de artes marciais, mas, apesar de tudo, lá estava eu, sempre disposto a concorrer pelo primeiro lugar no pódio de maníacos por jogos virtuais. A verdade é que, fosse eu tão exemplar no trânsito como era nas disputas veiculares que se passavam na tela da televisão, fosse eu tão cometedor de faltas como era no futebol computadorizado, já tenderia às declarações psiquiátricas e jurídicas sob a condição urgente de ser interditado. Capotava os carros com maestria, percorria as pistas na mão errada eficientemente, driblava cometendo faltas, procedia aos passes de bola cometendo faltas, goleava nas traves do próprio time cometendo faltas. A história se resumia, ao fim, com o último ou o penúltimo posto entre os desclassificados dos games. Hoje, por outro lado, a questão sobre ser bom ou razoavelmente bom nesses jogos se encontra em outro âmbito, uma vez que, entre os jogadores, acabo por ser o maioral, mas isso não é lá coisa a se vangloriar, os jogadores que comigo competem são os sobrinhos de minha esposa e, não fosse eu melhor que eles, essencial seria deveras um safanão: o mais velho dos meninos tem nove anos, o subseqüente tem oito e o mais novo dentre eles apenas cinco! A que ponto se chega, francamente.
Todavia, se é preciso achar algo em que possuir algum talento, posso dizer que crio histórias escritas com alguma facilidade. Longe de ser mestre, mas um escritor a se lapidar vagarosamente ao decorrer os anos. Ao fim da semana passada essa definição se apossou de mim em meio a jogos mais plausíveis, que, como se aperceberá, se transformaram em outra percepção das jogatinas deploráveis: folheei um livro chamado Jogos para exercitar o cérebro, ou qualquer coisa parecida. A questão que oportunizou a minha consciência para as criações assim dizia:
Fulano de tal, no Oriente Médio, furtou tâmaras da tamareira do palácio real. Configurou-se crime hediondo, com a penalidade de prisão perpétua. O condenado, cerrado em uma cela, tinha, à sua disposição, quatro portas que davam acesso a quatro câmaras e, após elas, à saída para a liberdade. Na primeira delas, cobras aos montes impediam a passagem. Na segunda, leões vorazes e famintos aguardavam um pedaço de carne para abocanhá-lo. Na terceira, uma lupa gigante instalada no teto filtrava todos os raios solares, unificando-os em um só potente foco que torrava tudo que sob ela ficasse e, na quarta, integrantes de uma tribo de canibais que estavam revoltados por terem sido submetidos a uma dieta frugal. Fulano de tal, necessitando retornar aos seus negócios e à sua família, tinha de arquitetar um plano para escapar da prisão. Por qual porta deveria ele passar?
Embora estivesse impresso que o nível de dificuldade se classificava por ser difícil, a sutileza da questão faz supor, depois de a resposta ser dada, que o problema é demasiado fácil. Pois bem, bastava que o preso aguardasse baixar a noite e, em seguida, escapar pela porta em que a lupa se encontrava.
Essa hipótese, extremamente simples e simplória, passou longe de minha mente, que, como logicamente se deduz, é meio capenga para jogos e raciocínios lógicos (quem há de dizer se sou lógico por inteiro)... Ocorre, mesmo, que, em vista do termo “arquitetar um plano” no corpo da questão, a hipótese proporcionada pela imaginação que em mim se situa foi a seguinte:
Primeiro, tentava-se fazer contato com os integrantes da tribo canibal. Ao se depararem com Fulano de tal, corpulento e saboroso, logo se poriam a lamber os beiços; prometer-se-ia um exército de homens fartamente gordos e mulheres carnosas para deleite de seus estômagos nada altruístas, mas, primeiro, teriam de passar por um ou dois leões mirrados, sem força para ataque, preferissem eles as cobras, seriam de menor violência. Para calcar o ânimo na contenda que daí se decorreria, elogiar-se-iam a esplêndida arte e coragem dos integrantes da tribo ‘x’, vigorosos guerreiros em busca da plena satisfação bélica e outros termos tendenciosos a fazerem com que estufassem os peitos de tantos brios... Entrassem em uma das duas salas, zás!, adeus canibais. Ou, quem sabe, inventar-se-ia toda uma história repleta de mágicos floreios junto à sala da lupa gigante, o que permitiria que Fulano de tal ficasse completamente livre para atravessar a sala vazia e escapulir de sua privação de liberdade.
É um raciocínio um tanto quanto ilógico, como é de se verificar, mas não deixa de ser um tanto quanto fantástico e supostamente criativo... Ou, se nada disso, ao menos uma hipótese em que tende a se estar fora do comum.
Vejo, enfim, que é assim com a individualidade de cada ser humano, não é? Se sou uma fatalidade para os jogos, para as matemáticas e para os exercícios de raciocínios evidentes, um lidar com maior delineamento em outras áreas humanas, a da criatividade, a da narrativa e a do vernáculo me soam melhor arte.
Já exclamam os adágios: conformem-se as cobras, que não são presenteadas com asas, mas com presas peçonhentas, o que se é e o que se tem é a exata medida de si mesmo.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Soneto aos sonhos

Que pode vir morar em ti, ó, Sonho,
Senão muitos carinhos de tuas musas?
O céu te fita; a vida tu só acusas;
Retorna ao corpo, assim eu te proponho...

No entanto, se tomares para ti
Nas árduas horas desse enlevamento
Apenas o fulgor do frenesi
É lógico exclamar a ti: “Lamento...!

Porquanto vives sempre na alegria
Do sonho e não na terra que espargia
Em ti as doces provas, muito castas

De extrema e adocicada fuga insana
Tu ficas; resplandece e em ti se afana
A inevitável morte que te abasta!”

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Diário da Sibila Rubra & Clube dos Imortais (contém SPOILERS)

por Guilherme Sandi

Quando um novo livro é lido, eu penso: haverá, a bem da verdade, idéias novas que são originalmente produzidas no senso criativo de um ser humano ou tudo que é criado em verdade é uma poda a bel-prazer do suposto criador para que o que já existe persista em sua existência, mas com um contorno próprio de quem lhe leva a autoria?
A estrutura da pergunta que me fiz é a mesma dos questionamentos de Elaine de Voltaire, personagem principal do romance Diário da Sibila Rubra: O retorno das bruxas e personagem secundária do romance Clube dos Imortais: A nova quimera dos vampiros, como prova de que, tendo acabado de ler tais dois livros na seqüência supramencionada, a forma dos íntimos questionamentos da sibila rubra em tela se fez presente em minhas próprias inquirições.
Ambas as narrativas, escritas por Cristiano Marinho, mais conhecido pela alcunha de Kizzy Ysatis – segundo ele, o prenome oriundo das sílabas desconexas de uma donzelinha que não pronunciava o nome de nascença do escritor corretamente e o sobrenome proveniente de uma deliciosa fragrância – trazem consigo a figura mitológica do vampiro como personagem fascinantemente primordial para o desenrolar das tramas.


Em tempos de crepúsculos instauradores de vampiros cintilantes à forma de purpurinas de estátuas vivas e bebidas escarlates cujo sumo faz sucesso dentre os parasitas de pescoços por ter alguma conexão com sangues de supostas vítimas, produzir uma narrativa sedutora de vampiro não parece ser grande coisa e tentar ressuscitar a figura do sanguessuga-mor nos faz lembrar que ainda há autores que persistem no erro de centralizar vampiros repletos de clichês em seus textos tragicômicos, seja contemplando o vampiro como pomposos mortos-vivos que vivem a se lamentar pela imortalidade enquanto saboreiam cigarrilhas e taças de absinto, seja encarnando-o como a real figura de livros de terror em que o vampiro não se trata de um galã da mais alta garbosidade, mas de um horrendo sugador de sangue que é, de fato, o que sua natureza demonstra.
O fato é que, excetuando-se os clichês sugeridos acima, a indagação persiste: seriam os livros de Ysatis mais do mesmo? Moda passageira, cópia de Bram Stoker, carona dos wolverínicos vampiros de André Vianco ou, quem sabe, um aspirante a Anne Rice tupiniquim?
Nenhuma das quatro hipóteses. O que Cristiano faz é da mais densa originalidade, ou, retifico, se não exatamente original no sentido da utilização das tradicionais figuras da bruxa, do vampiro e do lobisomem, é, sim, excelente no que concerne aos enredos bem elaborados, aos personagens minuciosamente relatados, à História nacional que magicamente se coaduna com a ficção.
Li, no último ano, a primeira das obras escritas, Clube dos Imortais. A princípio, como chato que tendo a ser quando aponho as mãos em qualquer nova obra, a primeira reação veio salpicada com as ardências pimentosas dos preconceitos: ai, romance juvenil sobre vampiros de novo, confesso que essa foi a primeira idéia que engendrei na mente. Luciano, peça essencial para o desenrolar da trama, menino de assoberbada beleza andrógina, Cláudio, seu melhor amigo, exato duplo oposto ao primeiro, crê em tudo que as evidências não explicam, Jéssica, a namorada mui amada que se desfaz de qualquer resquício de consideração para com Luciano, uma vez dele rompendo relações em virtude de paixões inexplicáveis por outro cidadão, Marta, a enamorada não-publicamente-declarada do primeiro rapaz, Selma, melhor amiga de Jéssica, aparentemente de futilidade imensurável, e Miguel, o típico atleta descerebrado. De outra forma, se esse azedume se criou, docilidade se construiu quando me apercebi da estrutura formal do romance: metáforas belíssimas, passagens digressivas elaboradas de forma magistral, linguagem floreada à maneira da segunda geração do Romantismo: morbidez, angústias e dores existenciais, características essenciais ao desenvolvimento da personagem do vampiro.
E o vampiro que reina na obra de Kizzy é um ser mítico. O autor não faz simplesmente encaixar um sanguessuga inescrupuloso sem qualquer ponderação nos capítulos, ele cria uma ascendência e origem para todo e qualquer vampiro, o qual, se antecipa, provém de duas possibilidades: por conversão divina e é exatamente aí que julgo se encontrar a nova quimera dos vampiros, pois Kizzy cria uma origem bíblica para o ser vampírico, sendo despertado à imortalidade por um anjo de real valor; e a segunda maneira, da forma tradicional, vampiro criando vampiro, mas com um originalíssimo porém: só se transforma em vampiro se evocado pelo primeiro e se o transformado ansiar se tornar um. Ou seja, exclui-se a possibilidade viral do vampirismo, uma vez não sendo doença ou pandemia.
Entretanto, não é só a criação donde é oriundo o vampiro que me deixou em fascínios. Aqui se amalgama a fantasia vampiresca com a História brasileira, pois o vampiro em tela nutre imensas obsessões por um poeta imortal de nome Álvares de Azevedo, aquele literato que se banhou de glórias ao escrever, entre outras obras, a magnífica Noite na taverna. O vampiro encontra em si um apaixonamento sem tamanhos, sempre concretizado e se renovando com o passar dos anos, desde um baile de carnaval no reinado de D. Pedro II, passando pelas arcadas da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, pelo Cemitério da Consolação e pelo Teatro Municipal de São Paulo e em nenhum lugar estacando.
Crer que Clube dos Imortais é tão-somente mais um romance juvenil de vampiros é um erro grotesco. A juventude contemporânea se demonstra como real imagem espelhada da juventude de outra época, que o diga o vampiro, que passa o romance inteiro se asseverando desta noção e dela fazendo surgir precioso resultado.
Posteriormente, vim a ler Diário da Sibila Rubra, que explica com mais detalhes o desejo do vampiro pela figura de Álvares de Azevedo, embora o enfoque primordial deste romance seja calcado na já mencionada Elaine de Voltaire, futura matriarca das sibilas rubras, uma antiga ordem de bruxas, cujo tom rubro das melenas as caracteriza. Não obstante, quando de seu lançamento, tenha o autor dito que a ordem de leitura de ambos os livros não seja essencial para o entendimento dos romances, sugere-se aqui que Diário da Sibila Rubra seja lido primeiramente, excetuando-se seus prólogo e epílogo, que são mormente entendidos após a leitura do Clube dos Imortais, de forma que aquele é, cronologicamente, o primeiro a ocorrer na sucessão dos fatos.
Ler o Diário foi-me de maior prazer. Escritores evoluem com o passar dos anos e do exercício da escritura e isso se evidencia no amadurecimento contido nesta narrativa, que é totalmente fragmentada, volta-e-meia ensejando o retorno a capítulos anteriores.


No entanto, a união das irmãs bruxas e de Thomas, o único rapaz, é feita de forma tão delicada, fazendo tudo criar ar de lenda, que, aliás, é o mote inspirador para as ocorrências do livro, parecendo-me que toda e qualquer tentativa de sobrenaturalidade paira no âmbito dos contos e causos populares que são incansavelmente contados no interior do país, com todos os amedrontamentos e fascinações que lhes são íntimos. A temática bucólica encanta: aparições no meio das florestas orvalhadas, línguas de bruxas que se metamorfoseiam em pererecas para funções malévolas, encantamentos que invocam forças da natureza, amores incompreendidos entre mariposas e chuvas catárticas, que são trazidos à baila com ternura e desejo inflado.
Aí repousa a origem de Fausto, o lobisomem que aprende a obedecer ao mestre vampiro, Vivian, a matriarca das sibilas rubras, Elaine, a autora do diário, guria que luta bravamente para domar suas emoções e anseios, e o próprio vampiro, que acalanta atemorizando.
É assim que se conclui o que se sabe: a Literatura Fantástica Brasileira tem nome e competência. E se não se pode dizer isso de todos os escritores que a tanto se propõem, ao menos em Kizzy Ysatis encontra uma excelência literária de cujo impulso criador não se escapa jamais.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

HONRARÁS PAI E MÃE

Aos pais tu honrarás em tua existência,
seguindo fielmente ao mandamento?
Renovas o amor rico em cuja essência
se verifica o grato sentimento?

É de bom grado: o ser agradecido
aos pais dedicará seu coração...
O homem se supõe evoluído
ao relembrar quem deu-lhe à Imensidão.

No entanto, deve o pai ao filho honrar?
Bem sabe-se, quando do reencarnar,
há pais a renegar a prole doce...

Portanto, o filho honrando ao pai é certo;
Difícil provação é o peito aberto
A quem teu pai não é, mas talvez fosse!



Escrito por mim, há mais de ano.

domingo, 12 de julho de 2009

Os sebos bauruenses e o vício literário


Exceto pelas de menor porte, em Bauru há três grandes sebos, se considerarmos as proporções medianas de um município interiorano: o Sebo do Baú, o Sebo Avenida e o Espaço Literário. Como admirador de literatura que sou, bem como dos livros de uma forma geral, não passo duas ou três semanas sem visitá-los, ora apenas para admirar novos exemplares, ora para gastar parte de minhas economias.
O vício que é por mim alimentado não é, na maioria das vezes, completamente saudável; como toda e qualquer paixão humana – embora eu julgue por vezes existir aí alguma transcendência – toda insaciável mania guarda em si um tanto de compulsão. Assim, é de se analisar.
Posso dizer que leio desde os nove anos de idade, aproximadamente, quando ganhei de uma tia muito querida, a quem carinhosamente chamo de avó postiça, um livro da coleção Vaga-Lume, atualmente ainda em voga, com publicação pela Editora Ática, intitulado A Ilha Perdida, da escritora Maria José Dupré.
As primeiras tentativas foram vagas, lia e relia sem qualquer continuidade, retornava um tanto entediado e então estacava logo no capítulo inicial. Com o decorrer da maturidade humana, saboreei-o com a mesma avidez de uma criança que se delicia com um doce. Recordo-me de acordar aos fins de semana bem cedo, quando nem o sol havia ainda despontado, a casa ainda em grave repouso noturno e me trancava no banheiro, provavelmente para não atrapalhar o sono alheio com as luzes acesas. E ali me punha a ler até que estivesse completamente saciado ou que a saturação literária viesse exigir arrego em benefício de um retorno ao sono.
Exemplares de Marcos Rey – ainda da mesma coleção – me deixavam animado em descobrir quais eram os possíveis assassinos das tramas; os primeiros clássicos ainda povoam a minha mente, quando, aos treze anos, mais ou menos, li Lucíola, Dom Casmurro – o qual odiei, num primeiro instante – e O Seminarista, este último uma das melhores leituras até os tempos atuais. Depois veio Augusto dos Anjos no primeiro livro de poesia de minha juventude e sua morbidez influenciou-me abruptamente, com um murro de dentes estilhaçados e gengiva rebentada. A literatura gostosa de Fernando Sabino e seu O Grande Mentecapto – relido por quatro vezes –, os deliciosos Olhinhos de Gato de Cecília Meireles, e a epifania grandiosa d’A Hora da Estrela, de Clarice Lispector também me atingiram feito foice. Depois houve a trama bem embalada da fantasia quando Murilo Rubião irrompeu com seu O pirotécnico Zacarias, Moacyr Scliar com seu O centauro no jardim e a trama de Bilbo Bolseiro em O Hobbit; Drácula mostrou-me a dentadura; Frankenstein emprestou-me parafusos e emoções que eu não possuía e O médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson logo me fez ir em busca de um eu que não fosse eu mesmo (e vez ou outra percebo encontrar o Mr. Hyde residindo em minha pessoa). Entre as mais recentes aquisições estão os romances vampíricos e bruxólicos de K. Ysatis, um novo escritor brasileiro, que torna a fantasia plausível, e da bem premiada Rowling, com sua saga potteriana, que se une com maestria às conhecidas exasperações juvenis. Mais recentemente, deparei-me com a taciturna pessoa de Cornélio Penna, que produziu quatro excelentes romances em vida – dois ainda estão por ler –, bem como Jorge Amado em sua A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água, e, ainda, José Saramago com suas veementes cegueiras que a tudo vêem.
E calcado junto a isso estão as livrarias e, mais precisamente, os sebos, fontes de todo o prazer literário. A Aline, minha esposa, por vezes luta contra meu impulso de adquirir novas histórias: é tomá-las à minha propriedade e surge a discussão de que há inúmeros livros ainda a serem devorados, “leia-os primeiro, Guilherme, depois você compra mais”, mas, em verdade, não deixo de assumir a culpa pelas compras desenfreadas, todavia há alguma parcela de culpabilidade nesses sebos que se põem em meu caminho; vejo o livro resplandecendo, o preço de vez em quando acessível e o pensamento cintila, afirmando-me que aquele exemplar pode figurar entre os livros a serem lidos por mim nos dias, meses ou anos vindouros, ali, muito bem guardados, à espera de meu ato de tomá-los em mãos e, em ímpetos intermitentes, transcender-me ao transcendê-los. Conversa de viciado literário, me ignorem. Como conseqüência, há de se antever o porquê das explicações: os sebos me têm ocupado um tempo e espaço desnecessários, o que logo explico.
O primeiro deles, o Sebo do Baú, sito à Rua Treze de Maio, é a livraria bauruense de livros usados mais tradicional de Bauru, pois citemos os sebos e ele figura como expoente primeiro em nossa mente. Hoje anda abarrotado de artigos desnecessários, fitas VHS sem quaisquer utilizações, livros escolares extremamente desatualizados, revistas eróticas mal conservadas, cuja cautela é necessária antes de folheá-las. Em tempos remotos, era um sebo agradável de se visitar, bem ventilado, iluminação atrativa e lacunas de espaços que nos permitiam a mobilidade plena, sem tropeços em pilhas esparramadas pelos chãos ou encontrões com prateleiras dispostas displicentemente. Recordo-me de uma ou duas poltronas extremamente confortáveis que se localizavam no segundo pavimento, à frente uma mesinha baixa, em que coleções de livros curiosos se empilhavam, um verdadeiro convite à modorra literária por horas. Respiremos saudosos em meio às lembranças, pois se aspirarmos o ar pesado que agora lá paira é possível que inalemos ácaros dos mais gorduchos ou o pó que se acumula nos vincos dos livros poderá nos causar espirros intermináveis.
O que consola é a maior possibilidade de negociação: proclama ele vinte e cinco reais num livro, propõe-se dezoito, ele fecha em vinte.
O segundo deles é o Sebo Avenida, localizado à Avenida Rodrigues Alves, um misto de antiquário demasiado mal-conservado com depósito de livros lançados às traças. O do Baú não está lá muito diferente deste, mas, quanto ao Avenida, é de se quebrar todos os recordes de tentativa de permanência, o atendimento é um tanto precário, relato-lhes que dois dias atrás estive lá por mera curiosidade e um senhor já idoso, atendendo aos gatos pingados que lá se encontravam, supostamente cansado de me balbuciar os preços dos livros, achegou-se junto a mim e lançou-me uma frase curiosa: ‘olha, rapaz, você separa o que quiser e depois eu te falo os preços, sabe, a gente negocia’. Eu respondi: ‘mas, senhor, eu não sei o que quero, estou aqui de passagem’. E ele não me atendeu o pedido, esqueceu-se de me informar qual o valor do livro, no fim de todas as contas.
Ali, põe-se o indicador na lombada de um livro e as digitais ficam negras, negra também fica a paciência depois que encontrei uma biografia romanceada do Marechal Deodoro da Fonseca, edição datada de 1974, e, ante a conclusão de custar o livro dez reais, ao que pedi um desconto, um mísero desconto de dois reais que fossem, o idoso me exclamou: ‘não posso, não posso, já está muito barato, só mesmo por dez reais’. ‘Toma aí seus dez reais’, entreguei o dinheiro, mas junto aos neurônios eu pensava: ‘velho sovina de uma figa’.
O terceiro sebo é o Espaço Literário, o caçula até agora, com prédio à Rua Antônio Alves. Esse sim vale a pena conferir, mas informo-lhes: apenas conferir, admirar os livros e quadrinhos que ali existem. O proprietário é um sujeito aparentemente pequeno, e não estou a me referir à estatura, mas ao modo como trata seus clientes. Não obstante estejam os livros muito bem asseados – em sua maioria, o sebo é composto por livros semi-novos –, os corredores minuciosamente identificados e limpos, o ambiente vez ou outra exalando um odor de limpeza agradável, cada exemplar ali existente carregando em suas capas ou contracapas o preço exato, impossível é que se negocie. Percebo, a cada dia que passa, que as prateleiras se multiplicam e o espaço míngua. Pudera, chega-se e dá-se um bom dia, apenas vem um aceno de cabeça. Toma-se o livro em mãos e lá está etiquetado: LIVRO NOVO, por obviedade decorrente da denominação de sebo que o livro não é de todo novo, já está usado... e o preço? Bom, o preço é dois reais mais barato que ir a uma livraria e comprar uma edição totalmente nova, virgem e casta, pura, sem marcas de orelhas ou leitura recente. Daí entoa-se um diálogo:
— Esse livro aqui, vinte e cinco reais. Dá pra dar um desconto?
— Posso fazer por vinte e quatro.
— Dá um desconto maior aí, vai.
— Impossível, o livro é novo.
— Mas é usado.
— Mas é mais novo que os outros.
Não bastasse, há a possibilidade de troca, leva-se um livro que não mais se deseja e propõe-se uma permuta; começamos pelo fato de que, igualmente etiquetado, há algumas unidades, como, por exemplo, os livros bem conservados, com um colante berrante escrito LIVRO NÃO PERMITIDO PARA A TROCA, ou qualquer coisa que o valha, vem lá o dono do sebo dar cinco reais num livro que depois há de vender por quinze... É mesmo uma transação de uma extremosa cordialidade, a justiça que ele propõe, então, é valorosa à décima potência, um sujeito assaz transigente. Certa feita, pretendi trocar uma coleção de vinte livros, aproximadamente, do autor A. J. Cronin, coleção já antiga, cujo valor supus que ele me fosse permitir a troca por no máximo quatro livros. A atendente, que hoje sei ser filha do tal proprietário, encarou-me com azedume, e me informou: ‘essa coleção não aceitamos’. Eu indaguei-a acerca do porquê. ‘Porque não aceitamos, não há saída desta coleção’. Questionei-a se não poderia mesmo trocar tais livros, uma vez que uma placa com o logotipo do sebo informava a essa possibilidade sugerida por mim. Ela disse que não, que não tinham interesse e ponto-final, o que importava mesmo é o que desejava o dono. Meti-os debaixo do braço e doei-os à Biblioteca Municipal.
Então percebo que, seja por orgulho, seja por amor aos livros novos, acabo nas livrarias, autenticando em três ou quatro parcelas no cartão de crédito os livros novos, cujos donos pretéritos foram apenas o editor, o dono da gráfica e o proprietário da livraria. Uma amiga, numa ocasião, ficou a refletir acerca de um antigo sebo à Avenida Nossa Senhora de Fátima, cuja compra era paga por quilo, ou seja, compravam-se quantias de livros por mixarias financeiras e, como não poderia deixar de ser, o estoque deste sebo logo se findou, decretou-se a falência e o amor à arte ou ao total desapego material de seu proprietário, que logo se evidenciou... E eu ficava a sentir saudades dessas coisas que nunca vi, mas somente ouvi falar...
Possuo, portanto, toda uma relação de delícias e desavenças com livros antigos, exalando a pó suas páginas amareladas, mas há de ser isso matéria de outra crônica. Por ora, há de se ver o tamanho do meu vício, minha ambição pela literatura, meu amor visceral pelas histórias, grandiosas como os seres humanos, abrangentes como transcendências fenomenais, inversamente proporcionais às mesquinharias desses bauruenses ninhos de livros antigos, cujos proprietários prestam um desserviço à cultura.
Por outro lado, penso bem, reflito e chego a alguma conclusão: de que reclamo, não é mesmo? É uma sociedade capitalista o meio em que (sobre)vivemos, tendemos a nos acostumar à idéia de tudo ter e tudo reter.
Eu que o diga, com as obras literárias se amontoando, viçosas, como folhas verdejantes pendentes de suas árvores que em breve darão ensejo a amontoados de papéis encadernados mais conhecidos como livros.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Grã-gula

NOTA PRELIMINAR: depois de chegar aos noventa e sete quilos, resta uma fatalidade lamurienta: é esse o tipo de poesia que se verseja.

GRÃ-GULA

À mesa de um glutão, o rei quem é?
Em meio à massa fofa de gulosos,
Eu hei de assegurar-te que a ralé
Só lambe os beiços fartos, buliçosos.

Afoito, o rei é quem a coxa come?
É quem engole inteira a galinha?
Aquele com o frango à passarinha?
Procuro uma dica, um sobrenome.

Porquanto não há rei em seu reinado
Que sem um dote esteja preparado,
Com palmas de mi’a mão barrigas meço.

Passando rente a mim, um escaravelho
Repousa sua quitina no espelho
E eu me descubro rei em meu excesso.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Excerto de "As criaturas no jardim"

Vai-se um trecho da narrativa "As criaturas no jardim", história por mim escrita em 2003 e reescrita no ano passado, com um pouco mais de qualidade, suponho.
Não digo que o trecho 'segue abaixo', mas que se vai, se vai longe. Vai-se para não mais retornar, pois quando se escreve, já não volta o que produzimos, mas alça voo ante o mundo e para mais ninguém, senão para o mundo.
"(...)
— Ah, é apenas o sol. – fez o comentário dispensável do senhor Ronaldo Malaquias, o menininho urbano que não apreciou e nunca apreciará a grandiosidade da aurora porque guarda a sensação satisfatória de ter o sol a sete chaves dentro de si.
Algumas das criaturas se mostraram revoltosas, que estúpido homem é esse que viemos visitar, como é petulante, referir-se assim ao elemento mais belo de todo o globo, vamos lhe aplicar um castigo fustigante!, é preciso ter um pouco de paciência com o pobre sofredor.
Vê-se, desta forma, como Ronaldo Malaquias fenecia de uma preocupante alergia a que se dá o nome vulgar de ‘imperceptibilidade crônica à magnificência da natural essência circundante’. O nome científico não virá nunca ao caso, é uma expressão deveras extensa e se o latim é uma língua morta, a nenhum de nós caberá mencioná-la, pois que estamos todos vivos. E não é uma doença, como se pode supor; é uma alergia. Alergia que se tem desde menino, pode-se achar a cura com um pouco de deslumbramento, mas em tese é incurável: simplesmente não se percebe a natureza em derredor. Grande parte da juventude sofre disso, porquanto crêem que os verdejantes matinhos estão lá porque tendem a estar, numa finalidade tão-somente estética e, assim, não haverá nada mais dispensável que um quadrado de grama ou um monte de água a correr por entre pedriscos lisos. Ronaldo integra essa juventude; tem quarenta e tantos anos, é solteiro e tem um filho que escapara do casaco de látex, mas, não obstante, a juventude de sua alergia crônica é ínfima perto dos anos que o astro-rei possui.
(...)"

sábado, 23 de maio de 2009

A ruptura do passado

Vejamos bem em que nos fomos meter: o que se está falido hoje apaga o sucesso de outrora? Não haveria de outro jeito como ser diversa a reação. Está anulado o superveniente, o que há de ir agora sem ter passado conciso; se não há ponto-final é porque o diálogo é diferente: abre-se uma nova capa e delicia-se com nova história.
À Praça Washington Luiz, em Bauru, se localiza a igreja Nossa Senhora Aparecida, ladeada pelo prédio do atual colégio Dinâmico: dez anos atrás, quando eu lá ainda estudava, chamava-se por outro nome e, sendo por mim conhecido por esta intitulação outra, não o nomeávamos senão de Colégio La Salle, local este onde permaneci oito anos de minha vida.
Ainda estou a me recordar do primeiro dia de aula na antiga primeira série do primeiro grau, hoje, se não me falham as atualizações educacionais, primeira série e segundo ano do ensino fundamental, ou qualquer outra coisa que o valha, já que hoje não são mais oito os anos fundamentais, mas nove, que em tempos remotos se dividiam entre pré-escola, composta de um ano, e escola propriamente dita, composta de oito longos anos.
Por alguma razão que me foge, desse primeiro dia uma das únicas coisas que me surge à mente são as palavras de minha mãe ante minha apreensão, ali estava a escola, ali eu haveria de estudar e principiar a árdua labuta para o que sou hoje, ou o que ainda serei, ou o nada, já que não lembro bulhufas das lições das professoras – ou ‘tias’, como as intitulávamos – embora eu tenha um certo pressentimento de que nosso subconsciente guarde algum resquício do aprendizado apreendido... Além disso, havia um coleguinha de infância, o Michel, único proveniente de minha pré-escola, que comigo se postava durante os intervalos, as lancheiras abertas em grandes ângulos, configurando tudo extremamente grandioso para nossas pequenezas.
Retrato-lhes um mosaico de pessoas: a primeira das tias cheirava à velhice ou à obesidade, não me recordo ao certo, e lançava seus altos brados a toda a sala, com métodos didáticos e pedagógicos extremamente eficientes para a década de vinte; a segunda das tias era bem mais jovem e bem mais piadista, o que lhe rendia algumas graças e eu, por minha vez, extremamente desenvolto à época a ponto de hoje eu me questionar para onde fugira aquele Guilherme desinibido, causou-me certo estardalhaço que talvez permaneça no íntimo até hoje: numa de minhas jocosas investidas, apertou-me o braço e gritou entre a arcada dentária intertravada que eu era demasiado petulante, ou algo semelhante: aí o suficiente para a introspecção que viria a se desenvolver até agora há pouco (meio segundo atrás); entre outras tias, havia algumas que me foram particularmente especiais, não necessariamente por sua simpatia, mas por suas inexoráveis figuras marcantes. Esclareço que permanecerei em minha quietude em face de seus nomes, pois nada me horrorizaria mais que alguém vir a ler tais crônicas, apontando-me a possibilidade de vir a ser processado: a professora de religião, em sua macérrima silhueta, carola como um fundamentalista afegão, atestando sua rígida postura em sala, um desvio que fosse em sala e ela assentia a nota negativa com sua caneta de sanguinária vermelhidão... era possuidora de excentricidades várias, tais como afirmar que pudéssemos assassinar quem fosse, se nos arrependêssemos verdadeiramente, estaríamos fadados a sermos anjos celestiais...; com outro professor de religião discutíamos sobre teorias de diversas crenças, tais como a probabilidade da reencarnação e a desfuncionalidade da ressurreição, ante o que ele afirmava que a visão de outras religiões que não a dele de nada valiam e eram tolamente absurdas; a professora de ciências, com a qual nunca aprendemos uma coisa sequer, pois sua aula se limitava a copiar o texto do livro, transmitindo-o ao caderno para depois vomitá-lo inteiro em decorebas das mais inúteis direto nas provas orais... penso que com ela aprendemos a exata complexidade de uma ameba, já que era uma típica representante dessa espécie animal; a idosa professora de gramática, que, apesar de todos os pesares, era-me, à época, excelente, não obstante obtivesse consigo um semblante carregado de melancolias, parece-me, salvo engano, que seu marido havia se suicidado com uma bala no ouvido; a professora de redação, uma pequerrucha magricela que hora ou outra eu jurava que tentava furtiva e cautelosamente me lançar alguns tentativas sutilmente eróticas; as professoras de inglês e espanhol, com as quais pegávamo-nos desprevenidos, em sonhos sugestivos, senão pornográficos, ambas as mulheres viçosas e buliçosas, seriam elas ninfomaníacas?, os galantes em potencial se questionavam, a primeira uma mulher de grande espádua e coxas enormes, a segunda com seios curiosos dentro de decotes, e nunca a denominação de ‘línguas’ fizera tanto sentido...; o professor de bancos e valores, um aparecido com o qual todos simplesmente ficavam bestificados por sua aula de inestimável valor, mas aquelas incidências no princípio capitalista me eram demasiado complicado; a professora de geografia, uma mulherzinha que morrera e esqueceram de proceder ao seu enterro, não lhe podia encasquetar com nada mais, faltava-lhe apenas a palmatória, chegando ao cúmulo de, certa feita, deixar um aluno com a face virada à parede por conversas abundantes: numa ocasião em especial, saímos meia dúzia de alunos, revoltosos, em decorrência de uma injustiça com um de nós em especial... Enfim, memórias: o bebedouro que funcionava perfeitamente bem, mas éramos proibidos de utilizá-lo; os corredores de tons azuis e piso de madeira rangente; a bomba que certa vez plantaram no banheiro masculino; os jornais da matéria de redação que tínhamos de fazer, quatro ao ano durante quatro anos letivos, sempre sobre meu dorso, lá vou eu a odiar trabalho coletivo; a briga com um pirralho no quarto ano, quando então eu definitivamente descobri que esbofetear a outrem era a última das alternativas para uma discussão; o tiozinho da cantina, que era o mesmo tiozinho da perua, com suas costelas salientes, a calça de tons marrons levantadas até o umbigo, a cabeça de fios ralos e os óculos cambaleantes sobre a ponte da bicanca; as inspetoras de alunos, uma japonesa ressequida e uma loira mais feia que um espantalho; finalmente a diretora, mais rija que uma réplica de Hitler, mas extremamente atenciosa quando fora da escola; meu pai, que reboava sua buzina ao buscar a mim e à minha irmã ao som de pan-pan-ran-ran-pan: pam-pam! Oito bons anos...
No colegial, fui matriculado a estudar na Sociedade Educacional Tristão de Athaíde, ou unicamente Seta, cuja sede bauruense se encontrava à Avenida Nações Unidas, uma ou duas quadras ao lado do Mc Donald’s. Bastou-me a primeira semana para o odioso tédio: não havia uma única alma com quem eu pudesse conversar, um ou outro conhecido que me cumprimentava timidamente, mas ninguém, ninguém a não ser eu mesmo. Essa crise de amizades depois se abrandou, amigos são feitos em quaisquer cantos.
De outra forma, sabemos como são as engrenagens para o funcionamento da escola mais substanciosa da época: os abastados ali investem a educação dos filhos. Entre 2000 e 2002, quando dali parti rumo à faculdade, era um dos melhores, senão o melhor colégio de Bauru.
Era assim que duas classes diversas ali se amalgamavam: a prole dos ricaços e seus filhos repletos de ascos, com uma tendência sobrenatural a balouçar o dedo em riste e propor questionamentos acerca do cargo que ocupavam seus pais, ou quem eram, ou qual a importância real deles, o que para mim não servia de argumento: mortos, federiam do mesmo jeito, se já não fediam em vida; e a prole da classe média que anseia o melhor ensino para os filhos e se mata dia e noite para dar o sangue naqueles boletos bancários de mensalidades crucialmente pesadas, sendo que alguns poucos deles, diga-se de imediato, se deliciavam com picadinho para arrotar caviar. Eu fazia parte da segunda leva e, como não arrotava caviar, para mim, a primeira leva, boa parte dela preocupada com o tamanho do topete ou a rubra coloração do esmalte, não me fazia grande diferença senão, ante a rudeza por eles proposta, me promover uma total indiferença.
Ali havia um quê de liberalidades, não mais uniformes, mas a lista de presença ainda era evidente, não mais a impossibilidade de se usar um bebedouro que funcionava, mas o total usufruto de um bem que estivesse às mãos e dentro da legalidade da escola.
Irrompiam pelas portas professores do mais alto gabarito e nenhum deles tinha a tez escamosa de figurões pré-históricos: eram todos os mais bem preparados, mas receio que a escola, ocupando-se em deixar à mercê dos estudos pré-vestibulares a preparação mais sagaz, esqueciam-se da humanidade e da total unificação da classe estudantil: ali as salas eram divididas entre os que tinham as melhores notas, numa decrescente reta que ia até a quarta ou quinta sala, repletas de supostos alunos sem qualificações. Isso também não me afetava, pois acabara por fazer alguns poucos amigos em todas as classificações.
A literatura me fora apresentada por esta época relatada, daí por diante comecei a apresentar meus textos, primeiramente os poemas, tendo um deles, de cunho erótico, sido lido em sala de aula, pelo professor que lecionava a matéria em tela. Daí surgiu-me a alcunha de poeta, embora não se dissesse em altos brados toda vez que me viam e hoje eu não acredite que o que eu versejava àquela época possua algum valor, seja estético ou em termos de conteúdo... Uma parcela das moças passou a me encarar com olhares desconfiados, decerto, diriam elas, um estuprador em potencial, mas tudo era literatura, ou, devo afirmar, um projeto disso.
Os simulados pré-vestibulares vinham à tona, eu me saía razoavelmente razoável: aquilo não era uma verdade que eu ousasse possuir, matérias nodosas, porém gorduchas, bastante inflamadas, como bolhas de pus, intumescendo sempre a matéria de conhecimentos mil, cada vez maior, maior, maior e no vestibular despejá-las-íamos para nunca mais usá-las. Professores me ficaram à mente como de grande intensidade e inteligência, alheios à mesquinhez e falibilidade dos vestibulares, reais exemplos de perspicácias e destrezas mentais, outros me ficaram como uma possibilidade, mas não uma efetividade de toda a educação em seus mais abrangentes sentidos.
O vestibular me foi feliz em Direito e formei-me há um ano e meio, aproximadamente, na Instituição Toledo de Ensino, a Ite, e hoje ando às tantas com os concursos públicos que tanto anseio.
Mas e o relato? A ruptura de meu passado educacional se fez por uma possibilidade que se une por uma semelhança peculiar: os dois colégios não mais existem como eram outrora. Ora, que fato mínimo para se prantear!, há quem viria apor suas reclamações. Tudo é mutável, as coisas não resistirão sempre ao tempo!, não é uma lógica inerente ao ser humano e as coisas dele decorrentes, que mudem, que tornem amanhã o que não era ontem?
Claro que sim, mas não é esse o fato a se lamentar, embora seus prédios permaneçam em construção: o Colégio La Salle agora não carrega em sua fachada o brasão que eu tanto lutava para decifrar, pois o nome é Colégio Dinâmico, e o Colégio Seta, com suas muralhas pardacentas ou simplesmente amarelas, agora se encontra sempre vedado aos olhos dos curiosos, porquanto das duas unidades existentes, o volume de alunos tanto diminuiu que um prédio apenas se fez suficiente. Ali, no prédio antigo, o único resquício de vida que vislumbrei recentemente foram os pichadores que a tudo tomaram, essa urbana forma de corrupção, o que faz com que este fato se torne cômico: nos idos anos em que lá estudei, não podíamos escrever nossos nomes nas paredes sequer com canetas bic, uma vez que assim, clamavam os funcionários a plenos pulmões, estaríamos degradando o patrimônio da escola...
O que resta em mim é o riso frouxo, saudosista, aquele nostálgico e não o lamurioso, quando olho o que passei e o que por mim passou e percebo que, não obstante tenha-se rompido o meu passado, pois o que vivemos é o presente, à espera do futuro, não se rompe a memória, que se interliga íntima e minuciosamente ao passado que foi, foi para sempre e não há de retornar senão na diáfana película da saudade...

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Do crime e outros acometimentos

Terá poder nosso íntimo sereno
A calmaria ousar lançar à lama
E a raiva vir qual chama em pá de feno
Que logo acende e a labareda inflama?

Terá poder tal fúria combustiva
Arrebatar à terra o semelhante
Jamais se exaure e nunca se é anelante
No espectro de si mesmo grita: “Viva

O intento mais cruel que a mente cria!”
Se expande igual tumor findando o dia
No ocaso taciturno e entusiasta.

Mas é de se pensar que quem semeia
As fímbrias com que a morte tece a teia
A própria cova expande e então se mata.

domingo, 19 de abril de 2009

A Gruta dos Palhares

Ali estávamos nós, no prolongamento do feriado de carnaval, embora seja difícil informar que dia exatamente fora a tal data festiva e como se estabelece anualmente que dia é o mais sensato para a comemoração. Se é que há alguma sensatez para a famigerada festa da carne.
Sim, porque se não há, ao menos na ocasião que relatarei havia emotividade em estarmos no local em que estávamos e, decorrente a isso, uma espécie de gostoso assombro se apresentara.
O município era provinciano e a Sacramento de Minas Gerais estava ostentosa de uma modorra sonolenta. Eu havia passado alguns dias em Igarapava, cidade de minha noiva, e para a Sacramento fôramos a passeio, com o escopo de conhecermo-la, talvez houvesse uma ambientação típica das cidades históricas de Minas Gerais, localidades que visitei seis anos atrás, e cuja memória me traz afáveis recordações.
Era a estrada pista simples, mas não havia um só carro a ultrapassar; o céu radiava uma tonalidade azulada típica de dias invernosos, mas fazia um calor de crepitar madeira oca. Entrecortados pelos morros – cuja denominação topográfica ou geográfica me é desconhecida, já que noutras hipóteses me referi a eles por colinas ou serras ou montanhas diminuídas – que encerravam o horizonte distante, cores vívidas pululavam aqui, ali e acolá.
Florações ladeavam a estrada tosca, balouçando às carícias dos ventos, que rumorejavam seus ecos surdos quando perpassavam as frestas dos vidros do automóvel em que estávamos. A mata rala tinha, num instante, tons pálidos, noutro, verdejantes e, apondo os olhares mais além, notava-se que a rodovia serpenteava por entre as curvilíneas extensões das colinas.
Os aromas também pairavam nos ares, por vezes agradáveis, noutros instantes repulsivos: ali estavam os perfumes de mata recém-ceifada e, mais além, o inconfundível sumo de bagaço de cana-de-açúcar utilizado para regar os plantios. Surgem brincadeiras a respeito de tais odores (“quem quiser peidar, aproveita!”), mas tomam espaço os rebanhos de bois, vacas e bezerros, que logo irrompem em suas cotidianas existências ruminantes com suas mandíbulas sempre ali, chicletórias, reiteradas e reincidentes vezes.
Assim, inseridos nesta paisagem de sucinta paz, chegamos à Gruta dos Palhares, localizada no município em tela. Penetra-se e admira-se: estamos rodeados pela montanha, aparentemente o horizonte se esconde. Uma espécie de chafariz se avizinha, rodeado por uma grama minuciosamente aparada. Ouve-se o ritmo de delícias da água despejando-se gota sobre gota.


Ao lado direito de quem entra, árvores de enfileiram, dispostas displicentemente, à margem de um lago que não sei informar se artificial ou não, e sobre ela, uma ponte donde se é possível admirar os cardumes de peixes ornamentais, com suas carpas gorduchas.
Mais ao fundo, o espetáculo de primo esplendor: a Gruta.
Parece-me, com ares poéticos, que ali a Natureza se aflora com mais vivacidade que nas estufas estufadas por urbanidade a que encontramos nas metrópoles: uma bocarra se escancara para o mundo, é o que metaforizo eu, o que metaforiza a ordem natural de todas as coisas.


Suportando as pessoas que espantadas se aproximam de tal grandiosidade, a temperatura amena, alegremente agradável, se não está a gruta simplesmente impossibilitada de cerrar sua cavidade bucal, ao menos se assemelha a um bocejo: cabíveis cinco mil pessoas ali dentro, eis o que asseveram os guias turísticos e não é de se espantar que se possa ouvir um ou outro sujeito tendente à musicalidade entoar seus cânticos em busca de uma perfeita acústica e um retorno sonoro estrondoso.
A própria Aline, com seu gorjeio de rouxinol, ali se propôs a cantar, sugerindo-me que, se não tinha a mesma curiosidade dos outros cantantes que ali se acumulavam, ao menos desejava falar a língua dos pássaros, vez que, dentro da gruta, mas ainda à sua porta, era-nos possível avistar as maritacas, em casais inseparáveis, se aninhando nas reentrâncias rochosas das paredes da gruta. Passavam em nuvens estridentes e por um breve segundo imaginei que poderia trazer guarda-chuvas para me restringir dos balaços de suas titicas.



Lá do tope que os olhos não transpassam, uma caudalosa fonte d’água se lançava até o chão, numa imensa bacia construída no concreto e, em outro instante de desvario, imaginei-me em banhos refrescantes sob a chuva do córrego, rio, lago ou o que quer que fosse aquilo, posto não ter sob meus olhos as dimensões donde se procedia a queda d’água.
Isolados em contáveis canteiros, paisagismos se avolumavam: debaixo duma ou doutra folha, aranhas teciam suas teias diáfanas, onde seus ovos eclodiam com freqüência, dando continuidade às belezas da vida.
Havia de ter uma santa de gesso a um canto escavado na rocha e como não sei qual a diferença de um manto para outro, ou de uma santidade para outra, apenas o olhar nela pousei, criando probabilidades referentes ao pacífico estado de espírito com que nos deparávamos quando o silêncio em nós se precipitava.


— Vê os nomes esculpidos na rocha? – indagou-me o futuro sogro.
Realmente, pude antever, até a uma altura de dois metros, talvez três, no máximo quatro – neste último caso, certamente talhados com a ajuda de andaimes – por toda a extensão da gruta havia nomes e apelidos de pessoas que por ali passaram, decerto escritos com canivetes ou outras lâminas mais resistentes.
— Há cinqüenta anos escrevi o meu nome naquele canto, quando eu era um adolescente. – e apontou-me a direção esperada.
Mas eram muitas árduas tentativas de se fazer refulgir no meio de tantas denominações que não conseguimos encontrar o nome mencionado. Certamente havia outros que se apontavam em conexão a outras pessoas da família de minha noiva: seria apenas coincidência?, seriam outras as pessoas, quantas pessoas haviam de ter se aventurado por dentro daquela enorme concavidade rochosa? Num canto, em letras trêmulas particularmente maiores que os outros nomes ali estampados, havia um, que pressenti não estar fulgurante à toa: “Pico”, um tio de Aline falecido há alguns anos. E se nosso merecido descanso ali encontrou guarida, o descanso eterno guardaria um espetáculo semelhante àquele?
Não se sabe, desgastante é a idéia de se calcar probabilidades após o desencarne. Sei mesmo que, quando dali parti, às costas a enorme arcada da gruta que se abria para o mundo na bocarra em que ela detalhadamente era formada, possível foi que ela divisasse em meu rosto o enorme sorriso que exprimi, tentando refletir em meu riso o riso dela, uma felicidade que podia abarcar a tudo e a todos sem que minha pequenez se tornasse arrogante diante de sua enormidade:
— Que boniteza essa Gruta dos Palhares, meu Deus!

Escrito por Guilherme F.



Links das fotos:

sexta-feira, 20 de março de 2009

Um esboço.

Eis algo que sempre quis ter talento para fazer: ilustrar. Pois bem, ilustrar minhas histórias. O homem rude acima se chama Custódio e é uma das personagens principais da novela que estou a escrever, "UM CONTO NATALINO", ou qualquer outra coisa menos espalhafatosa.
Como ilustrador, um excelente sonetista. ;)

sábado, 14 de março de 2009

Dois sonetos para o Dia Internacional da Mulher

Trabalho, na abafada Bauru, com um senhor de sessenta e tantos anos que, depois de certa idade, ingressou no mesmo concurso público estadual que eu. Eu tinha vinte anos; ele, à época, uns cinquenta e oito. Desde a primeira vez se mostrou excentricamente risonho e afável, embora, com o convívio, ficasse explícito sua lentidão em dar efetivo andamento aos incontáveis processos que se acumulam nas prateleiras do Poder que julga.
O curioso e real tema deste post, doutra forma, é sua verve literária à criação de trovas. Logo quando o conheci, uma das primárias coisas a me dizer foi que compunha o tal quarteto de sete sílabas poéticas, rimado em A-B-A-B, a linguagem simplificada. Achei-o bastante interessante, é bacana encontrar quem aprecie literatura e sobre isso tecer diálogos. Na oportunidade, aproveitei para divulgar meus sonetos, e, às pilhérias comuns do seres que sempre anseiam simplificar tudo na pura existência, fiquei com a alcunha sorridente de Augusto dos Anjos ou Castro Alves (pô, meu, como você escreve difícil!). Com o passar dos tempos, ante os elogios de outrem acerca de meus escritos, lá estava ele querendo se sobrepor com a divindade das trovas, que são boas, confesso que boa parte delas são agradáveis, embora não sejam todas.
Volta e meia o tal amigo de processos e vencedor de três concursos nacionais de trovas imprime certos caderninhos com poesia de sua autoria. Acho-os interessantes, mas, quando sinto uma espécie de diabrete pousando sobre a inspiração que me preenche, ouso provocá-lo. Assim, numa oportunidade em que ele trovava acerca da belíssima união do espermatozóide com o óvulo para dar ensejo a um novo ser humano (ou desumano, em grande parte das vezes), eu 'trovejava' em trovas em que o espermatozóide se apresentava, mui cortês, à amídala. Noutra oportunidade, tendo ele ganhado um concurso com uma trova sobre anel, lá fui eu parodiá-lo com uma trova sobre a expulsão do paraíso do primo casal do mundo, pois ousou Adão brincar com o anel de Eva.
O duelo é muito querido. Sinto-me felicitado pela possibilidade de espezinhá-lo, embora não o faça por maldade, mas por ironia e sarcasmo, que não se apresenta como inveja ou qualquer outro sentido malévolo, é justamente o oposto, é criar a arte das coisas mais improváveis. Eis o velho descontruir o lirismo, reconstruindo-o com outra roupagem. O que aqui se apresenta, para findar o assunto, são dois sonetos sobre o Dia Internacional da Mulher. Pois bem, sabemos como ficam envaidecidos os poetas com datas festivas: confesso que Dia das Mães e dos Pais já me foram inspiração recorrente. Não posso, por outro lado, concordar com o tal Dia Internacional da Mulher. Meu amigo velho e trovador pôs os neurônios para funcionar e presenteou-nos - e principalmente às mulheres - com vinte e oito ou trinta trovas sobre a tal comemoração. As meninas do cartório ficaram bastante lisonjeadas com as rimas, mas, fossem elas mais atentas e ler-se-ia em entrelinhas, num verso ou outro, que poder-se-iam descortinar vestígios de machismo, como lugar de mulher é no fogão, mulher bonita tende a apor chifres nos maridos ou, ainda, que mulher feia quer mesmo é uma resma de dinheiro. A maioria não era assim: como boas trovas, tornavam mítica a figura feminina, mas esse tom implícito ficou logo bastante explícito.
Eu, por outro lado, como sempre apunha certas restrições nesta data, provoquei-o, produzindo dois sonetos para o dia em tela. Ele os leu, deu um risinho interessante e balbuciou: 'bom, bom, bom'.
Vamos a eles.
I.
Nos deparamos com o mês de março
Eis o oito do três de dois mil e nove
Reflete-se: que sentimento esparso
Que o Dia da Mulher então promove!

Quer data cuja parca essência é esmola,
Um vil comemorar dissimulado?
Parece-nos que um homem que se amola
Defronte a sua mulher dá-lhe um agrado!

Se houvéssemos de parabenizar
A tal representante em cujo lar
Se viram aninhar os filhos seus,

Houvéramos de começar com Eva
Que não surge de um osso, pois releva
Que a sua Vida origem deu a Deus!

II.
Fitemos o galante homem garboso
Que quando se encontra em data festiva
(O Dia da Mulher que então cativa)
As rosas colhe tendo a fim seu gozo.

Será que assim não fora o primo macho
Na hora que estipulou-se um dia apenas
No qual pudesse dar-se em esculacho
Presenteando a fêmea em dós e penas?

Se houvéssemos de estar à isonomia
Eis o que o varão sábio então diria:
“Louvemo-las a cada dia a mais!”

No entanto, como data fetichista,
Parece-nos que exclama o vil machista:
“Um dia é delas; restam-me os demais!”

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

A dissolução das histórias

Uma das coisas que gosto de fazer quando há vontade e tempo, é traçar linhas e resumos dos livros que leio, romances em geral. Embora mal tenha uns bons pares de horas para tecê-los e ainda menos do que gostaria para escrever as minhas próprias histórias (e sonetos), vez ou outra consigo chegar ao meu intento e completar esses resumos. É interessante analisar os ápices da narrativa e sua estrutura. Não se analisam passagens específicas, mas a trama de uma forma geral.
O que se segue abaixo é um desses resumos: Sonho de uma noite de verão, escrito por William Shakespeare é um desses livros fantásticos que pedem para serem lidos, daqueles que, mesmo dormitando na prateleira, quando ousamos fitá-lo, dá ele uma piscadela atraente e um perfume literário escorre até nossas narinas imaginativas.
Recordo-me, rapidamente, da primeira menção que veio à minha mente referente a essa história, nos longes anos da década de oitenta, quando uma breve e fantástica representação desta peça se descortinou naquela tosqueira - para os tempos atuais - que com certeza, à época, se mostrava educativa: o programa 'Rá-Tim-Bum', com seu famigerado bordão: "Senta, que lá vem a história!" (e trombetas ressoando ao fundo). Encenaram o enredo, à maneira dos seis atores de que trata parte de Sonho de uma noite de verão: um tanto curioso e outro tanto cômico, embora longe de uma obra-prima.
Aqueles seres medonhos que eram o rei Oberon e o arredio Puck; a rainha Titânia e sua beleza proeminente; e a bizarria de Fundilho, o homem com a cabeça de asno.
Pois bem, se alguém que aqui lê pretende ler o livro, atente-se: toda a história se vai nessa postagem, trata-se de um autêntico 'spoiler'.
Muito boa a peça, por fim, embora eu prefira 'A Comédia dos Erros', escrita pelo mesmo dramaturgo.


ENREDO DE “SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO”, ESCRITO POR WILLIAM SHAKESPEARE.

Ato I; Cena I:
Teseu, duque de Atenas, e Hipólita, rainha das amazonas, anunciam seu casamento. Chega Egeu, acompanhado de sua filha, Hérmia, e de dois pretendentes seus: Demétrio, de quem seu pai gosta, e Lisandro, a quem Egeu odeia, não obstante seja ele quem Hérmia ame.
Lisandro marca com Hérmia no bosque, para que possam fugir sem que ela tenha que se casar com quem não ama. Chega Helena, que fica ciente do que está por ocorrer e pretende contar a Demétrio da fuga do casal.

Ato I; Cena II:
Seis homens estão a discutir acerca de uma peça que será representada quando do casamento de Teseu e Hipólita. Optam pela peça “Píramo e Tisbe”, uma tragédia cômica, que será ensaiada no bosque à noite daquele dia.

Ato II; Cena I:
Puck, um espírito descomedido, e uma fada qualquer conversam no bosque sobre seus respectivos soberanos: Oberon, rei das fadas e duendes, que está a chegar e Titânia, rainha das fadas e duendes, que igualmente está a vir. Ambos, sendo casados, se separam tendo-se em vista o fato de que Titânia, tendo convivido com uma senhora que já é falecida, tem em sua guarda o filho da tal mulher, um rapaz indiano, a quem Oberon deseja possuir para que faça parte de seu séqüito. A rainha das fadas e duendes, por sua vez, se obsta acerca desse anseio.
Diante da negativa, Oberon manda Puck recolher uma flor chamada ‘amor-perfeito’, a qual foi flechada por Cupido. Tal flor possui o mágico poder de, sendo derramada sobre os olhos de alguém, fazer com que ele se apaixone pela primeira pessoa sobre quem pousar os olhos. Puck aquiesce.
Entra Demétrio, acompanhado de Helena, moça a quem ele desdenha e que lhe faz doces galanteios. Ele vem em busca de Hérmia; ela se lamenta por ver Lisandro amar a Hérmia e Demétrio também, da mesma maneira. Saem ambos do campo de visão do rei das fadas e duendes.
Retornando Puck, Oberon ordena que esprema o sumo da flor sobre os olhos da rainha Titânia, para que ela se apaixone pelo primeiro ser que vir à frente. Da mesma forma, repartindo o suco da maceração da planta, Oberon ordena a Puck que o derrame sobre os olhos de Demétrio, para que ele se apaixone perdidamente por Helena.

Ato II; Cena II:
Titânia entra em cena com seu séqüito e, após breve festejo, dá ordens a que se retirem para que possa descansar. Acaba por adormecer. Oberon dela se aproxima e derrama as propriedades da flor sobre seus olhos, retirando-se em seguida.
Entram Hérmia e Lisandro, que estão em fuga. Cansados, deitam-se e dormem. São seguidos por Puck, que, tomando Lisandro por Demétrio, aplica-lhe a floração sobre as pálpebras que dormitam.
Surgem Demétrio e Helena, em brigas. Lisandro desperta, não obstante Hérmia continue a dormir, e pousa os olhos sobre Helena, a quem passa loucamente a amar.

Ato III; Cena I:
Os seis trabalhadores braçais que se autodenominam atores chegam ao bosque para o ensaio da peça teatral. Discutem acerca das disposições das cenas e das personagens.
Enquanto ensaiam, surge Puck e fica a mirar, com muita graça, a forma como os seis atores interagem. Ante a cômica encenação, Puck transforma a cabeça de um deles, o senhor Nando Fundilho, na cabeça de um asno. Horrenda visão se descortina aos olhos dos outros cinco integrantes do grupo, que saem em disparada, assustados. Nando de pronto não se apercebe do ocorrido e se põe a entoar doce melodia, que acaba por despertar a rainha Titânia, que repousa perto dali.
Sendo ele a primeira criatura em quem põe os olhos, Titânia se apaixona imediatamente pelo homem com cabeça de burro. A mando da rainha, quatro silfos surgem para mimar Fundilho.

Ato III; Cena II:
Oberon pergunta a Puck o que tem sucedido. Ele explica que Titânia se enamorou por um homem com cabeça de burro.
Entram Demétrio e Hérmia, discutindo. Deitam-se e repousam; Puck explica ao rei que é ela a mulher, mas não ele o homem a quem enfeitiçou. Oberon com ele ralha, pois era Demétrio a quem se referira, enquanto Puck enfeitiçava Lisandro. O rei das fadas e duendes ordena ao espírito brincalhão que vá buscar Helena, enquanto preme o suco da flor sobre os olhos de Demétrio.
Mas entram Lisandro e Helena, por quem ele se mostra enamorado.
Demétrio acorda e se apaixona por Helena. Ela julga que estão ambos a zombar dela. Aparece Hérmia, que, tristonha, acaba por desconhecer o Lisandro a quem amava.
Ficam os quatro a discutir; Lisandro desafia Demétrio para um duelo, ambos pelo amor de Helena, enquanto Hérmia é por eles desdenhada.
Quando os dois homens saem para o duelo, Oberon ordena a Puck que vá e, imitando a voz de cada um dos dois mancebos, os incite a se afastar um do outro, para que não haja mortes. Puck obedece: cansados os dois de serem iludidos um pelo outro, cada um a seu canto adormece. Entra Helena e adormece. Surge Hérmia e adormece.

Ato IV; Cena I:
Titânia irrompe pelo bosque, acompanhada de Fundilho, o homem com cabeça de asno. Dormem.
Puck e Oberon, ante a cena sonolenta, conversam; o segundo diz que, estando a rainha Titânia inebriada pelo feitiço e conseqüente amor pelo mancebo, já entregou o menino indiano à posse de Oberon e que, estando satisfeita a sua vontade, já não há mais porquê continuar ela com o sumo das flores sobre os olhos.
Ela acorda em face do contra-feitiço e se alegra ao ver Oberon. Ela fica horrorizada por ter se apaixonado por um homem com cabeça de asno. Oberon desfaz o feitiço dos olhos de Lisandro. Retiram-se Titânia, Oberon e Puck.
Surgem Teseu, Hipólita, Egeu e seu séqüito. Vendo os quatro jovens adormecidos, os acordam e questionam-nos sobre o que está a ocorrer. Demétrio, em paixões por Helena, se dirige a Egeu e lhe diz que não mais deseja se casar com Hérmia: que Lisandro o faça, enquanto ele se casa com Helena. Tudo estando devidamente regularizado, Teseu convida aos novos casais que se casem na mesma oportunidade que ele e Hipólita. Retiram-se ao palácio do duque.
Acorda Fundilho, já transformado em homem inteiro novamente.

Ato IV; Cena II:
Fundilho chega em casa, onde os aguardam os cinco amigos. Animado, convida-os a ensaiar a peça para que possam encená-la durante o casamento. Todo o ocorrido com os espíritos do bosque adquire uma sensação onírica.

Ato V; Cena I:
Quando do casamento dos casais, Teseu solicita de Filóstrato, seu mestre de cerimônias, que lhe apresente a tal peça. A representação é feita, entremeada por risos e pequenos escárnios, embora haja pelos espectadores um ambiente de agradável divertimento. Após seu término, retiram-se os três casais aos seus aposentos e o palácio, silencioso, fica deserto.

Ato V; Cena II:
Surge Puck, Titânia, Oberon, e seus respectivos séqüitos. Estando tudo resolvido, cantam e dançam com tamanho divertimento e, por fim, abençoam ao palácio e aos casais para que eternamente sejam felizes.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Banhados de luz estelar...




O que se vai aqui explicar é a forma de se amar.
Amar, retifico, não se explica, apenas se aprecia.
Ama-se com os olhos; não que cegos estejam desprovidos do amor, pois amam de maneira diversa, mas eu, particularmente, gosto de amar olhando. E não estou a me referir ao amor sexual em que se analisam as caretas orgíacas pela sexualidade que se intensifica a ponto de não desejar a escuridão. De outra forma: olho a derredor, tudo que circula no meu eixo, e é possível acarinhar com a essência tudo o que os globos oculares atingirem.

Assim sendo, digo que amo: mas amo mesmo por um fato em específico. Dentre a venenosa espinha dorsal do cotidiano, que abalroa os bons sentimentos, um ato desenvolto de entrelaces materiais veio a mim e, se admirando, me admirou:
Olha como a donzela retorna à infância! – e isso não é nada crítico, tudo que apontamos é a docilidade do instante – fito as palmas ritmadas, contentes, pois um desejo de se antever o natal finalmente foi dado à baila.
Os seus dedos eram de sutis desenvolturas, a pinça carinhosamente tocava os fios banhados em tinta dourada, pouco sedosos de tão minúsculas dimensões, eram passados pelo arco de plástico dourado que coroava as esferas natalinas, e fazia-se um nó.
Cada uma das bolinhas repousava no pinheirinho artificial (mas sentimentalmente verdadeiro), em cujas folhas se teciam confusões: ora eram de papel verde, ora de fibra ótica que, em contato à eletricidade, expandir-se-iam ao mundo em gama multicolorida, haveria eu mesmo de questionar: Deus do céu, como num fio pouca coisa mais grossa que uma linha de cabelo pode existir uma paleta de cores tão majestosas? Outrossim, de maior majestade era o riso da donzela.
Amava a tudo aquilo com maestria leiga, com um desejo tolhido por anos de desconfortos financeiros, e logo ali, durante tal ano ostentoso, em que conseguira lograr êxito em diversos campos da existência, também dava ensejo à criação de uma árvore de natal.
A enovelar-se por toda a extensão dos galhos, fitas douradas em purpurina radiantemente belas, que produziam fagulhas ao toque da luz, serpenteavam até o cume do arvoredo, em que, ao invés de uma suposta estrela de Belém, alargava-se, em felicitações cordiais, um papai-noel cartunizado, de bracinhos muito abertos, à iminência de um abraço afetuoso... E, embora fosse grandiosamente maior que o enfeite, a donzela aninhava o símbolo do natal em seu riso indelével.
Ainda por entre o tronco e os galhos, pequenas estrelas e bolinhas minúsculas, unidas em fila indiana, qual colar no pescoço de deusa mítica, davam último toque de especialidade nas fantasias infantis da menina já mulher, já um tanto vívida, já crescida, mas ainda sonhadora. Não se deixa de sonhar pelas contas a serem pagas; o sonho perdura eternamente se amor houver no espaço de viver.
Posteriormente, em seu gênio criativo, a donzela ainda fez pulular em si ímpetos de artesanatos muito ressoantes, e estrelinhas azuis e brancas, muito reluzentes, foram adornar o corpo do pinheiro, bem como gordos astros vermelhos feitos de papéis delicadamente dobrados e estufados em dedos ágeis e geniosos.
Ao pé da árvore, um presépio humilde se aconchegava com sua verdadeira simplicidade existencial, pois ali todos éramos singelos, felizes e amorosos e de nada mais poderia o mundo se completar, exceto por essa vontade de arvorar a todos os seres circundantes, os quais, por suas vezes, se exteriorizavam na doçura com que se apresentava a donzela venturosa.
— Quanta felicidade! – disse eu.
— É a primeira vez que monto minha árvore de natal, é um evento muito importante para mim.
Nos dias vindouros, golpes de vento viriam derrubar a tão ansiada árvore algumas reiteradas vezes e isso se tornaria quase irônico, talvez para que se testassem incontáveis vezes o ânimo de se montar uma árvore de natal e, não obstante pudesse se perceber uma linha de irritação na face da donzela em ter que montar e remontar e montar a remontagem novamente, tudo lhe parecia incansavelmente mágico de ser refeito.
A mim, que ficara, atônito, a admirá-la, só me sobrava a oportunidade de amá-la, incondicionalmente, a ela e à árvore, que julgara eu ser uma extensão de sua alegria imensa em estar presente para se contar histórias, para dar corpo a sonhos, para criar fantasias e, mais importante que qualquer outra coisa, para reluzir o amor que era pulsante em sua natureza grandiosa.

© Guilherme F.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

A hora da menina tempestuosa e do diálogo impetuoso


Vamos ao fato?
Se não fôssemos todos correntemente racionais, eu diria que minha irmã não é impetuosa, é tempestuosa.
Num profundo ímpeto de sabe-se lá o quê, se lhe tosa o cabelo; não digo que corta o cabelo, pois, ao cortar, se supõe um conhecimento pressuroso, um cuidado com os fios que nivele o corte, ali foi tudo uma fúria de segundos, até imagino o diálogo:
— Laís, seu cabelo é tão bonito.
— É, mas é muito... E nesse calor é insuportável.
— Por que não raspa?
— Como? Onde? Agora?
— Eu tenho uma máquina...
— Demorou.
Assim, nas singelas simplicidades.
Mas não é disso que estarei a tratar. O fato é que, tendo ela viajado a Buenos Aires – e este foi o segundo ato de suas tempestuosidades, somente precedida pela tosa insana – não carregou consigo um mínimo de cuidado e lá se foi no pau-de-arara, sem que seja essa uma expressão jocosa.
Até as últimas informações que me chegaram, o ônibus já fora parado por sete vezes pela Argentina, antes que chegasse a Buenos Aires, totalizando, e aqui se vão contas inexatas, 42 horas de ônibus sem ar-condicionado, sem banho e muita asfaltaria – é o que brinco dizer ser a maresia dos asfaltos.
Aqui no Brasil, precisamente em Bauru, morrem os pais de preocupações. E prosseguirá novo pedido:
— Filho, liga lá pro hotel para ver se já chegou o ônibus.
— Ahn, hm, mas lá eles falam argentino.
— Espanhol e inglês.
— Inglês?
— Sim, você fez sete anos de inglês, não é possível que não consiga conversar com um argentino cheio de sotaque.
Nos minutos que precederam a conversa, a mente se tornou espessa, com questionamentos acerca do que julgamos ser a preciosidade de nossos futuros, afinal, é de se imaginar que o inglês seria fluente após sete longos anos de cursos de língua estrangeira, e já forasteiro seria meu coração diante da conclusão tão longínqua do tal curso, não obstante raramente houvesse trocado palavras com gente de nacionalidade diversa da minha.
Ligo eu e o recepcionista me atende.
— Hola.
— Hello. Please, eu... I’d like to know if my sister has already arrived.
— Laíssa?
— No, Laís. La-ís.
Entre trancos e barrancos de diferentes línguas, o questionamento faz-se com sombras de anedotas: O que é, o que é: um curso de inglês com duração de sete anos, que se finda enfadonhamente e nunca mais se utiliza, para então fazê-lo ressoar repleto de erros crassos, que o mais leigo em língua inglesa não cometeria? A resposta é um eventual preparo para as decorrências que se desenovelarão num futuro vindouro.
Mas quantas vezes participamos de coisas e âmbitos que de nada nos servirão? Por que prosseguiremos sempre com atividades de supostas preparações? Para atingirmos uma carreira acadêmica? Para estarmos na iminência do uso do tal conhecimento valioso (e esse uso dificilmente se achegará)?
E quantas vezes refreamos a fonte de conhecimento de alguns cursos que vemos que nos traria uma perfeição após o treino reiterado, mas que abandonamos simplesmente pela preguiça ou não-perseverança?
Se algo me serve de consolo em toda essa parlenda, é saber que há um certo veio cômico em toda essa história argentina; eu, balbuciando de um dos lados da linha; o argentino repetindo pela terceira vez do outro lado; quase me ouso informá-lo de que não speeko ingrish.
E, se ao fim do thank you, ok, bye, bye, call me later, she’ll maybe be here, I hope so, bye, bye eu suspirei profundamente, ousando dizer estar ali a primeira vez que mantive um diálogo com alguém que usufrui de outra língua que não a minha, é de se querer alegrar com a fonte de toda a reflexão crônica, e uma certa clemência absurda quer ser regurgitada garganta afora:
Vai, criaturinha, vai pra Buenos Aires e se divirta por mim!

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Excerto de "A pequena grande verdade de um amor", escrito por mim.

"(...)
Neste exato instante, quando esta exclamação soou como o gorjeio dos pequeninos pássaros pela manhã esplendorosa de um fresco domingo, o pai pendurou no canto de sua boca um sorriso satisfeito e, diante da abrupta expressão inquiritória do filho, murmurou:
— Sabe, filho... Desde o dia de seu nascimento eu sabia que, um dia, você seria um homem muito sábio, com um senso de justiça muito intenso, capaz de fazer de quem lhe rodeia pessoas muito sensibilizadas com seu modo de olhar a vida...
O filho asseverou suas rugas que entremeavam suas sobrancelhas. O pai, com alguma dificuldade, levantou-se da poltrona em sua espécime vital de patriarca de muita sapiência, pois conseguira penetrar por brecha escura da teimosia de seu descendente.
Na realidade, duas verdades materializaram-se no espaço entre o rapaz e seu pai, sendo que a primeira das verdades já fora fruto de acirradas disputas por todo o globo, em épocas longínquas e contemporâneas: Deus, o Criador, de atitudes humanizadas, numa visão descrente e atéia, nada mais era que a mesma ordem natural científica e espontânea de toda a Natureza, a qual, por sua vez, dava sentido ao caminhar dos povos. O ateu crê, pensaram ambos, embora nem sempre tome ciência disso.
(...)"

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Excerto de "O íncubo", escrito por mim.

"(...)

Dindinha riu quase imperceptivelmente, em recordações se banhara; de fato, se fosse ela a confeiteira de teogonias, inovaria: dispensaria a onipotência daquelas vestes pesadas e taciturnas, ainda hoje permanecidas. Outrora sua inocência pueril a presenteara com a idéia de estarem os santos nus por dentro de seus mantos longitudinais... Por serem etéreos, guardariam genitálias humanas? Nutririam em suas vidas encarnadas o imensurável impulso de se deleitarem com sensuais corpos de parceiros cálidos ou febris? Haveria na humanidade efetiva necessidade do celibato, se o amor a quem era amado – uma das denominações ao tão-proclamado ‘próximo’ – nada mais era que uma forma de se igualar o amor afetivo ao que dedicamos ao Todo que nos rege?
À Nossa Senhora, Dindinha não a via em seu manto azul celestial... Impusera-lhe um vestido igualmente azul, de motivos florais bastante sutis, que se ondulava em vagas graciosas por entre as reentrâncias de ventos sedosos; os cabelos muito finos e acastanhados lançando perfumes ao universo, na morna tentativa de ser santificada por meio de essências que olfato algum na crosta terrestre houvesse provado; ao invés de mãe, sua irmã, com quem se trocam confidências femininas e as angústias sufocantes são dadas a cabo por se ter alguém que nos carregue quando se vai ao chão em tropeços esfoladores.
Para tanto, dispensara as reiteradas orações que se exigiam em outros indivíduos, à exata forma de lavagens cerebrais que seviciadores impunham a suas vítimas, e pusera-se numa dialética coloquial e sem precedentes na história dos suplicantes. Sentia a santa tão perto de si, quase num abraço acolhedor e repleto de aconchegos, quando, ao pé de seu ouvido, Dindinha pôde se atentar aos sussurros macios e quentes:
— Venha me ver após orar.
Eis a voz masculina do padre, não a da santa; escapara-lhe furtivamente a presença dela.
(...)"
© Guilherme F.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Diga lá, moça nova

Vai, moça, antes que o aconchego se aperceba e desabe com furor por dentro de nossas vontades, reduzindo tudo a uma complexa sensação parnasiana que não atinge a simplicidade. Ele não está tão distante assim, é fato de se evidenciar, pois está nas fuças como os olhos também estão, imersos num pranto que se pendura, que não cai e não se esparge.
Vai, que há de se fazer, é que o ser humano é tomado por impulsos primitivos de aproximação bruta e mais ainda de satisfação pessoal, mas a tal da racionalidade, que é muito sagaz, toma parte desta impulsividade e repele a tudo com um tanto de clausura de nós mesmos em nós mesmos.
Ali está a criatura, ainda nevoenta, e pensa em excesso. Por que pensa e simplesmente não se aconchega? Quem muito reflete não sabe refletir a si, se refrata, e isso é tudo. Há uma palavra singela e muito tímida que circula na ponta da língua, a que se chama tristeza, e a moça não sabe se é de se desculpar e compartilhar dessa melancolia ou se guarda tudo para si, como fazem vários cidadãos com medo da zombaria quando se diz o que se passa no íntimo... É humilde, que vai dizer, as palavras vão lhe faltar.
Mas se vivificam. Sabe que o parceiro, silente companheiro, não é de muito dizer, não ressoa muitas frases, não faz parte de si o falatório. Sente em demasia as sensações que lhes são lançadas, por vezes não distingue se são flechas de cupidos ou pedradas de furiosos, não lhe fará diferença, pois a tudo acata em resignação. Basta que lhe acariciem, que afaguem-no com delicadeza, e lá se põe o rapaz introspectivo a entoar seus amores, embora persista ainda no imutável tom intimista de sempre.
Vai, vou, vamos. Avante, moça.
Ela se aconchega. O breve resfolegar dos ânimos já não a assusta.
— Sei que não há perdões, mas não desisto de pedi-lo.
Diante das possibilidades, ele a encara, é mais fácil perdoar que pedir perdão, sabe-se que o amor, fugaz e profundo, a partir dessas discussões tolas se emana; fita-a no cabelo e em seu olhar, mas cala-se, não pronuncia uma sílaba.
Vai, moça, diga-o simplesmente, diga lá, sem pudores, sem medos perpétuos, a coragem à frente da frase.
— Não tenho a quem amar que não você, e se o tivesse, às favas, me vale o desejo em ti que a probabilidade em outros.
Não era um carinho físico, mas tinha o mesmo peso, bastara uma docilidade em palavras para que se agigantasse o companheiro gabola. Então veio a frase dele, única, expressão última de acalanto, certeira e caridosa, vê bem, que ela não repita suas puerilidades gordas:
— Não quero mais esse negócio de você longe de mim.
A moça foi. Num riso manhoso – mas que se traduziria, como sempre se finda, ainda numa tristonha poesia – aproximou-se de seu parceiro, companheiro de entoar melodias, fulgurante violão que lhe era fiel nos momentos em que a moça se espiralava para dentro de si própria. Foi tocá-lo em sutilezas e o dedilhar de sua senhora em mimos infindáveis o fez ressonante, brilhante, inigualável.
Lá vai a Bossa Nova. Criada por alma farta, decerto feminina.

© Guilherme F.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

O grande gotejar do gongo

Lá vinham flores roxas escorrendo
No limbo deflorado do cachimbo
Que o tempo escorreu como ao cinzel.
Fumaça negra sempre derretendo
A nossa intuição, assim crescendo
Como uma reta curva no papel.

Sobe, flor dos mares, como um clarão
Que estoura no momento da criação.
Faça-se luz por tão pouco,
Que esse pouco é a subsistência da sua essência,
cultivada como um perfume que se lhe invade
como pétalas que são versos ao legado do vento,
como sementes brotem no pedregulho crônico
dessa cronologia.
A uma dificuldade, de ficcus a idade invade
No verdoengo lençol de folhas dos segundos trespassantes.
Pois trespassa-me a idéia por tão pouco,
Que, de pouco em pouco, três passaram, fico louco,
No gotejo desse fio de amor corrente.

Se o cachimbo borbulhar as tais borbulhas,
Como gota que é sangüínea ao pé da agulha,
Nascem flores roxas pétalas afora.
Ah, não há nesse bafio escuridão
Cuja flor não se floresça à intuição
Desse sangue em que o sensível se aflora.

© Guilherme F.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Crônica da solitária: "À BEIRA DAS COISAS"

Pouso a cabeça sobre o travesseiro e descanso a matéria castigada. Olhe bem, que não voltará a fitar o corpo em desalinho quando já se for e por completo as coisas se sobrestiverem, sem grandes razões de estarem por ali, mas por só estarem, pois alguém lhes dedica às decorações de nossos anseios. Estamos, e porque estamos, as coisas tendem a sempre estar na iminência de se completarem; frustram-nos: nunca estão. Quem está somos nós. Mas quando deixamos de estar, as coisas florescem, pois têm o que de melhor tivemos e delas tomamos todo o tempo: a atenção, o grave ressoar das sensações que se pulverizam de dentro de nós.
E repentinamente me desafogo das mágoas, me reitero em vida, me desfaço de meu princípio, da minha história nesta existência, ainda que se julgue parcamente estar tão-somente em sua primeira noção de consciência. Por que sou demasiado jovem? Não, porque sinto falta de algo a que não posso nomear, uma presteza a que nada não se presta; eis uma capitulação melhor para o que se passa no imo: ao destro não se adestra.
A cadeira de canto, cujo assento já suportou muitos corpos. Lá estou eu: suporto muitos corpos nesta vida de luz baça. A penteadeira defronte a onde estou, de espelho riscado por conta do descaso do que se acha ser a intenção de limpá-lo. Aos espelhos não se limpam, pois lá estou eu: serei sempre abjeto, amórfico, na forma descompassada e retilínea, sempre retilínea, mas a vontade é de expansão, de se espargir como ao perfume de frasco curvilíneo que no tampo da penteadeira se afigura. A outro canto, a meia altura, um vaso de barro tosco, donde se lançam para fora umas pétalas muito plastificadas, cuja essência não se vê, nem se toca sem que haja repulsa, nem odor algum se prova. São o que parecem: plasticidade, e nem fazem maiores esforços de se assemelhar à vivacidade do que pretenderiam ser. Nestas vegetações simplórias, lá estou eu: sou o esboço do que se vê, o caminhar que se assevera das longas distâncias inatingíveis, a face no reflexo, sou a virtualidade da imitação do que se existe não se sabe onde. A porta de carvalho maciço, agigantada pelas proporções de onde a vejo... Por ela muitas coisas adentram, um pouco de tudo, mas sempre o muito é quase nada, é ínfimo e sutil, não se completa, não se vivifica, não se é saudável: é pobre e lívido, incompleto para chegar a ser virtude. Parece-me que também na porta me amplio, fosse ela uma gotícula e eu o oceano imensurável: à porta de mim me penetram os fatores, as mil personalidades que outrora me transpassaram, as consciências alheias e as próprias de meu eu. É por meio deste liame entre o englobar dos objetos que me são apetecidos e da minha própria relação existencial que me encontro. Mas sempre sem pestanejar e sem me sentir exato. Sinto-me: o que é a exatidão das coisas senão um jogo de luzes, uma incidência nuns corpos opacos que ganham brilho conforme neles se aglutina a inteira percepção do que lhes vêm de fora?
Ora, o que me admira mesmo é o meu inteiro estado de composição: estrela de cinco pontas sobre o lençol franzido, o lençol de algodão muito suave a acarinhar a tez sensível, aninhando seu possuidor, num abraço envolvente e não-recíproco; a fronha de igual face, reticente porque se alinha e toma a forma do que lhes dizem ser essencial, sem questionamentos nem intensas compreensões, apenas silenciosa...; o colchão, manto macio sobre a relva felpuda, as molas a pulsar os rolamentos e engrenagens de nosso complexo sistema; a estrutura do tálamo também de madeira de lei, forte e maculada pelas culpas que levamos às costas... e o efetivo eu a devanear por sobre todo o catre, estirado num corpo ressequido. Ainda há os varões e o diáfano dossel que me cobrem com a túnica do sonho, da divagação esplendorosa, do singelo desfiar das horas mortas, instante este em que se aguçam os sentidos que não temos, porque, se efetivamente estamos quando acordados, em sonhos profundos passamos a não estar na mesma freqüência com que nos vemos despertos...
É que então se intensifica o medo: a Morte, como será? Uma angústia se calunia porque se chama impostora; a razão se calunia porque se esvai em si mesma; a emoção é muito sôfrega para querer uma paz composta e repleta de floreios cristãos... Pelo apreendido em vida, a vida permanece. Mas este leve toque das lâminas infalíveis do porvir no fio que promove a ligação entre a essência e o grosseiro, o que possibilita sua obstinação? Vejo-me sendo o próprio quarto, em sapiência que inexiste, repentina qual corisco rasgando o firmamento.
E se desfaleço e o que há de certo se torna incerto, pois da inevitável doença me padeço e dela me disperso em pedaços de solubilidade reiterada – a que insisto em intitular Morte – é porque já hei de livrar-me de tais amarras. E se hoje estou, amanhã estarei ainda mais.
Avante, marinheiro, que a vida não se escoa por entre quatro paredes, num quarto de intensa escuridão, donde se liberta à consciência, e o impossível se torna perfeitamente vivificado, minuciosamente caridoso e estreito como são os questionamentos.
Eis a mim: sou o que existe e inexiste além do que se vê.

domingo, 23 de março de 2008

Bebês risonhos nos encantam como estrelas...

No ventre forte, ensimesmado e satisfeito,
Perpétuo infante desenvolve o seu complexo
Acarinhado, que, com ósculos e amplexo,
O amor doará aos pais e a quem lhe é de direito.

Até configurar, no entanto, a pessoal
Intensa personalidade forte e linda
Dos três até seis meses, vai-se intensa e finda
A monossílaba cantante e desigual...

Após, observa atentamente e analisa
As cores, sons, os gostos em total pesquisa
Que se interrompe ao tátil toque em tom diverso...

Ultrapassando as fases, tende a ser adulto
Em parcas frases, balbucia, afoito e culto,
Um “eu te amo” que é lançado ao Universo!

© Guilherme F.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Enquanto Tânia repousa, uma palavra de seu hospedeiro...

Tânia é intermitente: por vezes festeja do intestino de seu hospedeiro, mas, noutras situações, supõe o último estar ela em repouso interminável. Sim, ela hiberna, como ursos. É nestes momentos que seu, hm, digamos, "dono", aproveita o grave ensejo para dar vazão a pequenas explicações a que se sujeitam escritores em fase de constante construção íntima. Destarte, umas poucas linhas sobre os tijolos literários: há coisas insuportáveis que ocorrem em nossas parcas vidas às quais tendemos a consolidar em nossa literariedade.
O que segue abaixo, na mais pura realidade das coisas, era para ser uma crônica intitulada "Bilhete de Suicídio", fato ímpar que efetivamente se procedeu em mim, fazendo de minhas virtudes e descaminhos um turbilhão homogêneo de confusões. O suicídio? Sim, sua suposição estava deveras ali, como idéia fixa e crescente. Todavia, de mãos dadas à minha razão, questionei-me: seria eu mais um desses covardes que deixam à loucura uma mãe desimpedida, uma esposa descompassada, filhos orfãos, pai a perder um amigo? Não, embora fosse-me sedutora a possibilidade...
Mas, bem, bem... Isso não importa, pois não há merda mais consistente nessa vida que não possa ser liquefeita em água corrente. E se os coliformes fecais nela resistem é porque a memória não se apaga de todo. Para perpetuá-la, no entanto, impende-me que a floreie em minha literatura. É assim que, com arte e melancolia, que são inerentes ao mais estúpido dos seres humanos, transmito meus sentimentos controversos à personagem Lia Jobim (cujo nome poderá se modificar ao produzir a narrativa concreta), que padecerá do mal que a todos acomete ao menos uma vez em vida: a TRISTEZA, o anseio pelo fim de tudo e todas essas grandes bobagens que faz com que, embora desanimados, vejamos uma espiral de esperança em algum metro quadrado do universo.
A crônica/excerto abaixo certamente fará parte do futuro romance, sofrerá algumas modificações. Por mais banal e contraditório que pareça, o que a seguir se publica é um brinde à alegria, ou um querer que a felicidade se perpetue, mesmo tendo a plena ciência de que isso foge a nossos desejos. Boa reflexão.

"Juro: hoje pensei em me suicidar. A palavra ressoava nas complexas pactuações de meu cérebro e os pensamentos, que explodiam como disparos de atiradeiras. Algo me instigava, sugerindo-me a frase exasperada: “por que não se mata, por que não se mata?” Seria uma boa idéia, se não fosse extremamente irracional. Quem me instigava à morte? Seriam maléficos sacis-pererês que vagavam por entre os meandros da noite escura e, ao invés de troçar os cavalos nos estábulos, vieram pisotear minha ampla existência? Seria obra de um mau espírito, desses muito simplórios que crêem haver nas garras o globo, em sua totalidade, tal qual um megalomaníaco? Mas, por mais fantásticos que fossem os seres notúrnicos, nada seria pior que descobrir que a fonte de meu desalento era eu próprio, chafariz de imensidões, fosso de misérias, mina de sentimentos.
Assim fora, eu simplesmente desejei a morte. Ansiava-a com todas as forças, e os punhos cerrados num ódio imensurável de mim mesmo faziam marcar as unhas nas palmas de minhas mãos. Como procederia?, veio a frase seguinte. Para ritmar minha morte, talvez um tiro espalhasse os miolos por todos os cantos do lar imaculado e eu saberia como é monstruosa a quantidade de sangue passível de se verter da frágil carcaça do ser humano. Talvez se eu injetasse uma quantidade imensurável de potássio no sangue; talvez se eu inalasse cocaína em demasia e a combinasse com frascos coloridos repletos de pílulas moderadoras de apetite.
Desejo a morte e tudo isso basta. Quero cerrar os olhos e partir deste mesquinho viver para mergulhar na inconteste verdade que se atesta: eis o céu, o inferno, o purgatório. Mas isso não bastaria, tão-somente na insossa teoria; faz-se necessária a prática; mas, praticando, descubro que a felicidade do paraíso é como tempestades e trombas d’água a embalar o clima sórdido dos desertos: rara, extremamente rara e, se ocorre, trata-se de um momento ínfimo de satisfação. À felicidade, não há permanência. Ela é vaga e fugaz, da mesma maneira que a droga ao viciado que dela se utiliza. As penas eternas propagadas do inferno em suas labaredas avermelhadas também inexistem do lado externo, num processo rotativo que se principia no exterior e invade o nosso imo. Não, é justamente o oposto que se constitui: o Diabo somos nós, e, em verdade, nós o fizemos à nossa imagem e patética semelhança. Ao purgatório? Nada se purga, tudo se inviabiliza. A morte faz casa no espaço de nossos sorrisos.
Desta forma, questiono-me acerca do que há de vir, o que me é faltante ao parco manteúdo. Eu partia do princípio do razoável arranjo dos sujeitos numa cordialidade sagaz e uma fraternidade que se atribuía à estúpida classificação que me era dita como peculiares aos bons espíritas. Entretanto, envergonho-me de ter sido apaziguador, ou tentado me calar para prosseguir na calmaria das ondas. Agora sou desejoso da morte completa de meus ânimos, do perecer dos fatos e da desistência das centelhas que um dia, por mim, foram tão bem proclamadas.
Na romaria dos indivíduos que se julgam todos imensos sofredores e dotados de estúpidos pressentimentos de estarem sendo eles os plenos de certeza, faço duvidar de meu alto posto e de minha prosopopéia combatida e nunca analisada a bons olhos. Canso-me de ser o indivíduo que agonizava em sua falta de fluido vital, por ter supostamente sido sugado por parasita espertalhão. Que seja eu o sanguessuga maldito, que se fita ébrio nas esquinas sujas, a quem se dá uma moeda, mas não se destina a mão amiga.
Entendo a todos, mas aponto-lhes tolos. Todos clamam a verdade, que inexiste, que é pulverizada nos senões da existência, que nunca passou de mera teoria apática que se esvai nos ponteiros do relógio.
Eu quis a vida; só que, por vaidade, ela não me quis. Todos quiseram-na, minha pútrida alma, como pelúcia nos braços de criança que nela se apega. O marionete, comandado por ventríloco paspalhão, sou eu, pulsante das pinturas que escorrem das faces refletoras dos espelhos.
Que se faz quando se oferece a fronte a tapa? Nada; é esperar a pancada inclemente e a pele mergulhada na rubefação, talvez uma ou outra pequena veia estoura e faz jorrar tisnes sanguinolentas. Os mediadores, covardes pulhas pacificadores, não tomam nunca para si uma das partes. Sou eu o juiz, a sombra de meu eu verdadeiro, o criador desesperado. O covarde.
O alvo da existência de minha pessoa, até o presente momento, fora o amor, claro e caudaloso como o sustento promovido por prato do mais saboroso alimento. Liberto-me do bem; anseio a morte, pegajosa e negra, sufocada por trevas, porque, quanto a mim, faço-me, por descuido e irracionalidade, o produto abortado do que eu esperava ser minha progenitora: uma vida feliz.
A porcos, não se destinam pérolas. No entanto, tais porcos guincham em nossos pratos e as pérolas pendem em ornamentos suculentos de nossas gargantas. Ao fim, tudo se tornará grave mixórdia de vaidades. Por tal motivo, creio no cidadão que abate o porco e no joalheiro que configura a jóia.
Desisto, no entanto, pois é vaga a benevolência: o açougueiro me apunhala com a faca manchada pelo sangue do porco; o joalheiro me aperta o pescoço com a corda do colar.
E avante com os que restaram, pois são bem-aventurados por seguirem em frente."

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

GÊNESE (Tânia também aprecia poesia...)

Primeiro surge o caos.
Depois do caos,
Vem a pureza dos inseticidas.
Disso tudo, nada resta:
Nem caos, nem inseticida.
Só a pureza das coisas.

sábado, 19 de janeiro de 2008

Discurso de Homenagem aos Pais (e, se Tânia tivesse filhos, molharia os olhinhos... [isso se tivesse olhos...])

Fazer um discurso de homenagem e agradecimento aos pais é uma tarefa, ao mesmo tempo, fácil e difícil. Fácil, porque sabemos que com um simples obrigado e um olhar de gratidão já poderíamos dizer muito. Por outro lado, existe a dificuldade em tentar encontrar as palavras necessárias para expressar todo o sentimento de gratidão e admiração por tudo o que vocês já fizeram por nós.
Assim, não nos seria relutante dizer que tudo se principia com uma centelha. É certo que nem sempre o querer dar à luz é espontâneo e a soma das vontades do casal é convergente, mas ocorre que do relacionamento a dois certamente se produz uma centelha.
E esta mesma fagulha ágil e luminosa se dá durante a vida do filho que é uma centelha dos próprios pais: temos a fagulha da repreensão, destinada aos rebentos em momentos oportunos; a fagulha do abraço caloroso em que os pais exteriorizam o caráter divino de ser pai e mãe; a fagulha da ajuda mútua, quando o filho expõe uma dificuldade que a vida lhe atira e convida os genitores a acalentá-lo; a fagulha da fraternidade e solidariedade, tornando brutalmente ineficaz a sentença de que o melhor pai é o que distingue a paternidade da amizade. Educar um filho não é uma tarefa trivial. Vocês, pais, conseguiram. Se aqui estamos, é porque tivemos, em vocês, nossos primeiros e mais importantes professores.
Vocês são os responsáveis pela nossa educação desde o início, pois foram nossos primeiros mestres, disciplinando-nos, ajudando-nos e nos cobrando quando necessário. Foram – e continuam sendo – nossas companhias em momentos alegres e instantes de realização, que se exemplificam pelo primeiro dia de aula, primeira formatura, primeira decepção escolar, primeiras discussões com os colegas e todas as primeiras feitas na vida de nós, seres humanos. Festejaram e nos acalentaram quando preciso. Nossos pais, sustentáculos de nossas existências.
E depois de muito lutar nas batalhas que a vida nos impõe, depois de árduos cinco anos, chegamos aqui. Estamos hoje recebendo o título de bacharéis em Direito, muito embora estejamos cientes de que não há ciência, não há graduação, não há mestrado, doutorado ou afim que possa transmitir os valores e princípios que vocês, nossos pais, nos legaram. Belíssima é essa lição, que nunca será esquecida.
Sim, a terra é extensa e as raízes que cultivamos durante a vida se alongam por quilômetros, em tentativas certeiras de se conquistar o mundo. E os pais, que agora são centelhas mais radiantes, admiram em si mesmos a figura dos filhos, esses minúsculos grânulos de amor que ganham corpo e brilhos enormes, que vão inundando o universo com suas presenças inexoráveis e vão fazendo do casal genitor o nutriente mais substancial para seus crescimentos. Se assim não fosse, não poderíamos nos perguntar: qual filho nunca ousou estufar o peito ao dizer que seus pais são seus maiores heróis? Qual adulto, ao ser entregue ao mundo, longe do aconchego dos abraços paternos, não sentiu, em seu íntimo, uma vontade tresloucada de rasgar o cotidiano e voltar correndo junto à proteção do seio maternal? Que filho, pergunto, nunca se imaginou pai com pelo menos uma qualidade de seu próprio pai?
Sabemos que, bem além de nossas árvores genealógicas, alguns elementos corriqueiros de nossas existências se extinguem com facilidade: os bens materiais se vão com o passar dos anos; algumas amizades que julgávamos eternas somem nos tufões do tempo; relacionamentos amorosos se partem no fugaz segundo de um suspiro; nossos mestres escolares e nossos empregadores em certo momento passam a ser apenas longínquas memórias; mas os pais, muito mais que apenas centelhas cativantes, são eternos e mesmo que a matéria se acabe, mesmo que tudo se torne uma saudosa reminiscência, eles continuarão eternos e exemplares, pois fizeram algo de essencial frente ao mundo: foram, com todo o amor e carinho, nossos amados pais.

Por Micaela K. P. e Guilherme F.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

'Uma Carta para Clarice'

Menina Moça,

Se te chamo pela jovialidade, é porque te invejo: sendo teu oposto, faço crer-me muito senil.
Vê se não tenho razão: em minha velhice, encontrava-me a caminhar, solitário, parando entre a trilha para apreciar as flores muito coloridas.
Assim fora até o instante em que fitei moçoila que lavava o colo de pranto. Que será que lhe acontece?, foi minha reação. Mais surpreso fiquei quando ela murmurou que chorava porque não sabia o motivo porque teria um dia de se casar, ter filhos, trabalhar até que se aposentasse quando estivesse na idade de definhar. Sabe, Menina, que assim me falou com imenso inconformismo!
Ri, cobrindo a boca com os dedos. Talvez, Menina Moça, pudesse compartilhar de uma eventual resposta vinda de ti: “Menina tola que não deu passos suficientes para saber que a vida vai além destas bobas descobertas!”, mas logo troquei assombros com meus botões: “Menino tolo sou eu que compartilho dessas deliciosas banalidades da vida!”.

Teu velho amigo velho.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Um desabafo

Se você é mais uma daquelas pessoas que seriamente apreciam uma boa melancolia, sente-se em frente a este texto e prove um pouco da minha. Por favor, não palite os dentes, mas utilize o azeite e o orégano para dar um tempero especial ao petisco. Com dentes ávidos, mastigue vagarosamente cada minúsculo pedaço da minha tristeza, talvez como um salvador de meu eu, talvez como companheiro taciturno. Não me venha com a idéia, porém, de se embriagar à beira de túmulos. Não faz o meu tipo ficar confabulando sobre a morte e sobre desejos inevitáveis do porvir, mas tão-somente sobre a dissociação das idéias e a inconsistência do meu futuro. Deixe que façam dessa forma os que estão no bico do corvo, com suas doenças carcomendo os corpos. Para tais bastará a mera consciência de uma alma ou de uma essência que sobrevive e se conserva após o fim.
Pois bem, lá vamos nós. Fatiando em cubinhos, a minha tristeza se encontra nos poros. Típico dos indecisos, exalo, por não saber qual caminho tomar. Ou, entretanto, por ter vários caminhos que só apontam a um lugar, o fatídico e inviável momento em que deverei me desvencilhar das dependências e alçar vôo, ainda que pense estar este mais rente ao chão possível. As burocracias são clássicas, inodoras, mas repelentes. É preciso para a sobrevivência, costumam dizer. É preciso que apenas se saiba aplicar, não que se crie. E como posso apenas viver como reprodutor de coisas já sabidas? Eu, que me julgo razoável escultor das palavras, que me imagino criador de histórias, ainda que introspectivo no meu jeito habitual de ser, mas um quase louco? Como ser saltimbanco e palhaço em meio a dondocas e executivos que não conhecem a expressão de um sorriso? Dúvidas pertinentes acompanhadas de inúmeras interrogações!
E como poder ampliar meus braços, e rir meu riso, derramar meu pranto, se há sempre um machado de fio tinindo, fio infalível, fio certeiro e malogrado, a amputar meus membros? Ora, se finalizam minhas idéias mais bonitas?! Uma idéia bonita posta em prática não surge como uma aurora inevitável. Uma idéia bonita poderá ser apenas uma idéia bonita e, por vezes, pô-las em prática é tarefa das mais árduas. Há diversos companheiros que também apreciam sua beleza, mas nunca – e nunca se aplica por preguicite aguda, como dizia minha avó – moveram um micróbio de unha suja para que se concretize e se torne fundadamente alicerçável, alicerçadamente fundada.
Depois, há um quê de deixar tudo para a posterioridade, assim como o reconhecimento, que, na certa, será posterior à minha pessoa, à minha existência de mediocridades, de sobrevivências invictas, de estabilidades, de tentar ser feliz. Houvera de dizer, certo sábio, que, se todos fizessem o que lhe fossem do talento e não as devidas coisas que lhe são devidas para a conservação natural do homem, o mundo seria, inexoravelmente, um bom lugar para se viver e todos estariam satisfeitos... Quem rouba minha vaga, meu vagalhão de talentos? Ora, se só conheço um! E o resto não passa de divagações naturais e querências e quereres que não ousaria tentar, unicamente para não me ver inválido diante da apatia dos outros seres... Se já me basta uma, apenas...
E como vai o gosto? Melancolia empanada seria uma excelente idéia, uma boa idéia, já que tenho um apetite acentuado a essa hora do almoço.
Certamente não sei formular minhas frases, não sei pô-las, inteiras, no papel, pois uma centelha de idéia se choca em outra, se transmuta ou se funde, e um problema acarreta outro, induzindo ao nascimento de mais uma! É triste tamanho pesar, mas, por vezes, sinto meu instinto ególatra vindo à tona! Como agora, talvez, um sentimento que morre ao trespassar a primitiva e pesada parede da matéria!... Pois não há gente que possui muitos outros problemas e dúvidas mais relevantes que eu? Eu, que só imagino o que há de ser de mim nesse capitalismo selvagem, nessa consumação de coisas, nesse estúpido instante em que as paixões humanas mais profanas se acentuam e se afloram. Imagine, por exemplo, o tamanho da dúvida a quem é alvo de uma arma de fogo, mas muito se assevera da noção de ser de brinquedo o tal objeto. Revidar ou não revidar? Pilheriar ou não pilheriar? Ser ou não ser, morto?Ainda que as minhas chances sejam secundárias, cá penso com meus neurônios, o meu amor à vida e à espera de novas possibilidades se sobrevém, subsistindo no instante mais bonito em que o sol se mostra além de todas essas coisas mesquinhas e terrenas. Olhe, então, enfio o dedo médio na sua garganta e faço com que você vomite por inteiro a melancolia à qual brindamos! Não desejo que sinta o mesmo que senti... Que sofra o mesmo que sofri... Que chore as mesmas lágrimas pesadas que derramei... Talvez sofressem os mesmos gênios e os mesmos estúpidos seres ignorantes. Mas o sofrimento, por assim dizer, é coisa passageira, fútil, fugaz, como a cinza mais esvoaçante ao doce beijo de uma ventania.

sábado, 1 de dezembro de 2007

Num segundo, se não o mundo, o universo!


Existe, nos comentários dos seres humanos, ou tão simplesmente em critérios de observação subjetiva, um único instante, apenas um ápice de segundo, em que as criaturas terráqueas se mostram verdadeiramente lúcidas em seus instintos, incoerentemente sinceras, atipicamente apáticas quanto ao que eventualmente viriam os outros a pensar de seus gestos libertos. Esse momento, tão livre de grilhões da temperança, tão solto e macio em pensamentos e sensações, provavelmente é a fugaz centelha do orgasmo.
Talvez pela efemeridade das coisas, essa mesma centelha possua grandiosidade tão sublime. Não porque tente ser duradoura, e de fato não o é. Aliás, todos sabemos – mas pouco percebemos – que talvez esse pequeno suspiro guarde em si o momento mais divino e desprovido de materialidades que alguém possa intentar.
Assim apuro na pequena atividade de ir e vir – ou só ir para nunca mais retornar –, em que nos sintamos amados o suficiente para suicidarmos a timidez abrupta, a vergonha corada para, de chofre, embrulhados em paradoxos, nos colocarmos à beira do mais dessentimentalizado dos seres, quando dizemos qualquer besteirinha típica das sacanagens mais etéreas.
E porque me pareceu lindo esse instante, e talvez porque eu nunca me dispusesse a construir uma certa curiosidade em torno das minhas feições orgásticas, num segundo tão ágil como o do orgasmo pus-me a pensar sobre as minhas próprias expressões no exato sentir da essência das delícias. De tal forma: talvez uma língua que salive na junção entre os lábios, talvez a boca entreaberta, talvez as pálpebras semicerradas, procurando com o olhar a imensidão do infinito... Quem sabe os dedos a procurar os fios mais sedosos do couro cabeludo, além da probabilidade de sobrancelhas franzidas misturando seus devidos suores ao respirar sôfrego, cambaleante, intermitente, em sonatas de gemidos lânguidos, de palavras doces.
Assim me apercebi da indubitável característica do pedaço de morte que encontramos nas facetas orgíacas. Eis o instante de transição entre o vago momento sóbrio e a embriaguez de um sonho misturado a entorpecimentos dos mais ricos. A curiosidade de saber do gozo funde-se eminentemente. E então, resplandecem-nos as energias.
Foi assim: numa confusa mixórdia de palavras, frases e conceituações, eis que descobri a mais bela cena do ser humano. Despido de todos os pudores, neste átimo somos quem somos. Onde o homem mais bruto encontra sua violência, a menina mais casta se finda na doçura de sua beleza. Pungente como a cumplicidade de um casal que se reconhece ao montar o mais belo dueto com suas cordas vocais de amores, a esta maneira de excitação me entreguei com todas as cores, com todas as paciências e paixões. Tão-só porque em frente ao espelho uni a gama do éter de toda a minha alma, pude comprovar que ama bem que ama ao próximo, mas, da mesma forma, ama tão bem quem, sabendo dos prazeres que possui tão diáfano momento, sabe amar e fervilhar sentimentos de si mesmo. Pois assim é que, nos tomando de autoconhecimento e amando a nós mesmos, sentiremos o amor que, por outros, nos é dispensado. (E, diante das coisas maravilhosas do mundo, reconheceremos a felicidade de nos sentirmos amados).

sábado, 24 de novembro de 2007

Tânia divulga: "O Livro Negro dos Vampiros"


Por vezes meu pensamento se confunde com as divagações do hospedeiro. Eu, que também sou uma parasita, tal qual o ser mitológico do vampiro, portanto, faço divulgar a obra "O Livro Negro dos Vampiros", da Editora Andross, a ser lançado no próximo dia 16 de dezembro, às 18h, na Casa das Rosas, em São Paulo, de acordo com o site http://www.andross.com.br/.

Ademais, vale, além da divulgação, o comentário de que o conto intitulado "Preto da noite, vermelho do sangue", de temática - logicamente - vampírica, é de autoria de meu amado hospedeiro, Guilherme Sandi. Aos poucos vai-se ao longe. À Andross Editora, os parabéns pelo profissionalismo.

Acima, lá no topo, a capa do livro. E eu fico aqui, em meu eterno parasitismo (e resignação...).

sábado, 17 de novembro de 2007

RESIGNADO

Qual o limite entre a resignação e a necessidade de mudança? Onde se situa o liame grosseiro entre o homem resignado e o que deve se revoltar frente ao conformismo? É a resignação uma espécie de conformismo lasso?
Quem não sabe as respostas, não duvida das perguntas. Delas advêm outras, menos esclarecedoras, mais confusas.
Quem é mais sábio: o ser resignado ou o que promove transmutações? O que suporta calado, com um grito mergulhado em estupor, ou o que faz soar seu urro de inconformismo? O homem silente que aprende com a introspecção e sofrimento ou o que é ensinado a lutar pela alta dialética das coisas, pela interação de entidades que devam dar ensejo a modificações próprias?
De todas as questões, nenhuma faz descortinar uma palavra de conforto imediato... Nenhum ser humano, em verdade, teria a resposta certa e efetiva a cada individualidade. Necessário se faz que se proceda a chaves analíticas para escancarar os portões da certeza de uma resposta correta.
Talvez, por conseguinte, em meio a indagações tão expressivas como essas, se encontre uma resposta – parida, neste segundo, como fagulha vinda à mente – que se concretiza em uma oportunidade única: não há melhor ou menos pior ser humano, seja o resignado ou o inconformado...
Eu, por minha vez, hospedeiro de minha alma, sei – ou pretendo saber – a melhor frase que defina meu ente personalizado, se sou efetivado em minha própria resignação ou se o impulso de clamar por novos horizontes me surge logo à garganta.
Aqui, quem vos fala, incessante, é o escritor calado, por vezes frustrado, o que não implica dizer que se escancara à resignação na totalidade das ocasiões. Nas discussões com outras pessoas, sempre aquietando os pensamentos, que me pareciam muito exigentes, muito explosivos, quase como sufocando a própria personalidade... Nunca tomando para mim responsabilidades de diversas espécies, à fuga imperceptível de grandes ambições ou de tramas indissolúveis de apegos responsáveis.
Isso me aborrece... Angustia-me... Mas o desprendimento de todas as essências por vezes me alivia – o que não é lá coisa muito louvável – mas que se há de fazer? Tomar parte das coisas? Tornar o mundo às avessas do que já é? Destruir minha resignação e minha complexidade de mundo? Atirar-me frente à ventania, descamisado? Às vezes há a dor, a incompreensão, as críticas, tudo permeado numa tola covardia.
Reedito a questão primordial: é a resignação uma espécie de conformismo lasso?
A resignação, para o resignado, é o grande tesouro; para o inconformado, o imenso infortúnio. O inconformismo, uma grande tolice frente ao resignado, que vê uma provação em seu silêncio e uma forma de suportar as agruras; para o inconformado, por fim, a maneira essencial de se evoluir a si próprio, de se seguir em frente, sempre avante, dando o melhor de si, se esvaindo, costurando, por entre as bafejadas da vida, as opções cruciais que a vida lhe impinge.