No primeiro ano de faculdade, por exemplo, faço recordar comigo mesmo de uma ocasião em que um aniversário de um amigo se marcou pela fartura de jogos, dentre eles um tal de detetive e assassino, que consistia em escolher, dentre um punhado de jogadores, dois deles: um para ser o detetive e o outro o assassino, ambos vigentes no anonimato. O detetive tinha de descobrir, apenas com o olhar, quem era o algoz, pois este deixava em seu rastro uma prova essencial: as piscadelas. Um piscar de olhos era o suficiente para se matar a outrem. Os civis, assim chamados quem não era detetive nem assassino, ao receber a piscadela, dizia estar morto. Iam sendo eliminados um a um, até o término. Ganhava quem matava a todos primeiro ou se o detetive descobrisse o meliante antes do total genocídio ocular. Pois bem, eu era sempre o tapado que não adivinhava quem era o assassino e ficava para chupar o dedo. Meus neurônios sempre foram razoáveis, para não ficar chato dizer péssimos, nessas diversões.
Na mesma ocasião brincamos de porco. Eu pouco me lembro das instruções do jogo, pois, pudera!, as reminiscências aparecem mais facilmente quando são memórias agradáveis, as quais, como se vai logo perceber, não eram tão memoráveis assim. O porco, se não me falha o cérebro, conceituava-se, basicamente, em um jogo de cartas, que eram embaralhadas, transpassadas em montes, divididas em número igual pela quantia de participantes e, cartas às escuras, tinha-se que compactar uma certa quantidade de naipes iguais para que se desse ensejo à rapidez de raciocínio e, por conseguinte, ao movimento ágil das mãos.
Quatro naipes idênticos!, quem as tivesse reveladas abaixava primeiro seu baralho e, à vista disso, os outros jogadores sucessivamente baixavam seus maços de cartas já inúteis. O que restava por último, vulgo dizer, o mais lerdo, tinha de pagar um castigo impróprio aos indivíduos de bom coração. Adivinha quem era o retardatário? Dou uma estrela de inteligência exemplar a quem descobrir.
Eu era alvo dos sadistas que se deliciavam em me assistir no papel de deplorável jogador. Só neste dia antes mencionado, como prova de meus castigos, tive o rosto pintado com carvão de rolha de cortiça queimada, mastiguei frango torrado, folha de boldo e engoli sal grosso.
Depois de tudo isso, e ainda com o espírito esportivo em voga, eu tendi a murmurar: posso ser café-com-leite da próxima vez? Ante a negativa dos colegas, eu suplicava: vamos brincar de outra coisa? Ainda sem a aquiescência coletiva, eu simplesmente me retirava ou ficava à banalidade de meus pensamentos.
Pus-me a fazer uma análise diante disso em todo o decorrer de minha vida, a principiar pelos jogos esportivos: futebol, basquete, tênis, vôlei, handball e toda a sorte de jogos que se compõem pela utilização de uma bola, de pronto descartei, eu era, e continuo sendo, um completo ser inoperante. Com a comicidade de agora e a antiga amargura, relembro-me das sofríveis aulas de educação física, em que se formavam os times para as partidas de futebol de salão e eu era sempre o último a ser escolhido. Houve ocasião em que os capitães dos grupos, além de discutirem quais seriam os derradeiros selecionados, ainda me empurraram um para o outro como brinde, frise-se, um brinde totalmente dispensável.
Depois, passei a perceber o desastre encarnado nos jogos de cartas. Joga truco?, era a questão dos amigos. Eu respondia que já havia aprendido tal carteado incontáveis vezes, mas que o meu senso de raciocínio e minha memória de pato não me permitiam debruçar sobre o truco com a mesma intensidade com que era imbatível em ficar apenas olhando a outras pessoas jogarem. Pôquer, buraco ou paciência eram possibilidades de ficar a um lado conversando ou mesmo quieto: o desenrolar do passatempo só se dava na teoria, pois na prática o regulamento não se adensava em minha mente. Aliás, quanto ao jogo de paciência, paciência mesmo quem tinha de ter era quem ficava ao meu lado me assistindo a disputar a partida contra o computador.
Outra situação me veio à mente: fomos eu e minha esposa – aliás, uma mulher guerreira, que não esmorece ante minha inaptidão aos jogos, pois me dá um banho nas competições logo de cara – à casa de um casal de amigos que sugestionaram disputar uma partida de canastra, salvo engano. Chegamos às onze horas da noite. À meia noite eu desistia de jogar. Às quatro horas da madrugada os três companheiros encerraram as inúmeras rodadas de canastra, já cansados. Às mesmas quatro horas eu já havia assistido a uns três filmes na tevê a cabo e já estava no vigésimo sono. Curioso, não é? Pelo menos eu comi pra dedéu, porque as mãos não ficavam ocupadas segurando o baralho.
Refleti também acerca dos jogos de azar. Bingo era uma desgraça para este que vos fala. Ao menos eu tinha a desculpa de informar aos conhecidos que a sorte nunca estava ao meu lado: bingos, sorteios e promoções sempre se encontravam a longínqua distância de mim. A regra da sorte a quem nasceu com o orifício sedal exposto ao satélite da Terra só foi quebrada com a infalível megassena. Não que eu tenha sido sorteado e esteja milionário!, antes fosse! O que ocorreu mesmo é que, sempre tendo apostado em números que primeiro vinham à minha mente e – novidade – nunca tendo ganhado nada, numa ocasião específica anotei, num mínimo pedaço de papel, os números para gastar meu dispensável um real e cinqüenta centavos. Sorteada a megassena, corri ao jornal e fiquei pasmo ao perceber que cinco dos seis números jogados haviam sido premiados. O ponto essencial nessa história foi que esqueci de jogar na meia-dúzia de valorosos números, bem como esqueci o papelete no fundo do bolso da calça. Entendi, nesse dia, o porquê de a megassena levar consigo o nome de jogo de azar. Para a situação específica seria melhor fazer uma adaptação e carregar consigo o título de jogo de burrice, é de se convir.
Os jogos eletrônicos também me foram uma decepção, cujos precedentes só foram superados pelas circunstâncias já relatadas nesta crônica. Em minha meninice, numa época em que os jogos eletrônicos eram diversão garantida e novidades de informática estavam em constante evolução – e continuam diuturnamente estando – costumávamos, eu e uns primos, todos mais velhos, durante as festas de fim de ano ou nos feriados prolongados, unir-nos em grupos para nos divertirmos com os games de diversas modalidades, principalmente os de corrida e os de futebol. Eu não era afeito a esportes, bem como não continuo sendo (que o diga minha pança homérica), mas sempre, quando convidado, me propunha a apertar os botões dos controles sem qualquer disciplina. Apeteciam-me os jogos de plataforma e os de artes marciais, mas, apesar de tudo, lá estava eu, sempre disposto a concorrer pelo primeiro lugar no pódio de maníacos por jogos virtuais. A verdade é que, fosse eu tão exemplar no trânsito como era nas disputas veiculares que se passavam na tela da televisão, fosse eu tão cometedor de faltas como era no futebol computadorizado, já tenderia às declarações psiquiátricas e jurídicas sob a condição urgente de ser interditado. Capotava os carros com maestria, percorria as pistas na mão errada eficientemente, driblava cometendo faltas, procedia aos passes de bola cometendo faltas, goleava nas traves do próprio time cometendo faltas. A história se resumia, ao fim, com o último ou o penúltimo posto entre os desclassificados dos games. Hoje, por outro lado, a questão sobre ser bom ou razoavelmente bom nesses jogos se encontra em outro âmbito, uma vez que, entre os jogadores, acabo por ser o maioral, mas isso não é lá coisa a se vangloriar, os jogadores que comigo competem são os sobrinhos de minha esposa e, não fosse eu melhor que eles, essencial seria deveras um safanão: o mais velho dos meninos tem nove anos, o subseqüente tem oito e o mais novo dentre eles apenas cinco! A que ponto se chega, francamente.
Todavia, se é preciso achar algo em que possuir algum talento, posso dizer que crio histórias escritas com alguma facilidade. Longe de ser mestre, mas um escritor a se lapidar vagarosamente ao decorrer os anos. Ao fim da semana passada essa definição se apossou de mim em meio a jogos mais plausíveis, que, como se aperceberá, se transformaram em outra percepção das jogatinas deploráveis: folheei um livro chamado Jogos para exercitar o cérebro, ou qualquer coisa parecida. A questão que oportunizou a minha consciência para as criações assim dizia:
Fulano de tal, no Oriente Médio, furtou tâmaras da tamareira do palácio real. Configurou-se crime hediondo, com a penalidade de prisão perpétua. O condenado, cerrado em uma cela, tinha, à sua disposição, quatro portas que davam acesso a quatro câmaras e, após elas, à saída para a liberdade. Na primeira delas, cobras aos montes impediam a passagem. Na segunda, leões vorazes e famintos aguardavam um pedaço de carne para abocanhá-lo. Na terceira, uma lupa gigante instalada no teto filtrava todos os raios solares, unificando-os em um só potente foco que torrava tudo que sob ela ficasse e, na quarta, integrantes de uma tribo de canibais que estavam revoltados por terem sido submetidos a uma dieta frugal. Fulano de tal, necessitando retornar aos seus negócios e à sua família, tinha de arquitetar um plano para escapar da prisão. Por qual porta deveria ele passar?
Embora estivesse impresso que o nível de dificuldade se classificava por ser difícil, a sutileza da questão faz supor, depois de a resposta ser dada, que o problema é demasiado fácil. Pois bem, bastava que o preso aguardasse baixar a noite e, em seguida, escapar pela porta em que a lupa se encontrava.
Essa hipótese, extremamente simples e simplória, passou longe de minha mente, que, como logicamente se deduz, é meio capenga para jogos e raciocínios lógicos (quem há de dizer se sou lógico por inteiro)... Ocorre, mesmo, que, em vista do termo “arquitetar um plano” no corpo da questão, a hipótese proporcionada pela imaginação que em mim se situa foi a seguinte:
Primeiro, tentava-se fazer contato com os integrantes da tribo canibal. Ao se depararem com Fulano de tal, corpulento e saboroso, logo se poriam a lamber os beiços; prometer-se-ia um exército de homens fartamente gordos e mulheres carnosas para deleite de seus estômagos nada altruístas, mas, primeiro, teriam de passar por um ou dois leões mirrados, sem força para ataque, preferissem eles as cobras, seriam de menor violência. Para calcar o ânimo na contenda que daí se decorreria, elogiar-se-iam a esplêndida arte e coragem dos integrantes da tribo ‘x’, vigorosos guerreiros em busca da plena satisfação bélica e outros termos tendenciosos a fazerem com que estufassem os peitos de tantos brios... Entrassem em uma das duas salas, zás!, adeus canibais. Ou, quem sabe, inventar-se-ia toda uma história repleta de mágicos floreios junto à sala da lupa gigante, o que permitiria que Fulano de tal ficasse completamente livre para atravessar a sala vazia e escapulir de sua privação de liberdade.
É um raciocínio um tanto quanto ilógico, como é de se verificar, mas não deixa de ser um tanto quanto fantástico e supostamente criativo... Ou, se nada disso, ao menos uma hipótese em que tende a se estar fora do comum.
Vejo, enfim, que é assim com a individualidade de cada ser humano, não é? Se sou uma fatalidade para os jogos, para as matemáticas e para os exercícios de raciocínios evidentes, um lidar com maior delineamento em outras áreas humanas, a da criatividade, a da narrativa e a do vernáculo me soam melhor arte.
Já exclamam os adágios: conformem-se as cobras, que não são presenteadas com asas, mas com presas peçonhentas, o que se é e o que se tem é a exata medida de si mesmo.

















